sábado, 25 de março de 2017

Eurodesiludido mas não eurocético

Em dia de aniversário europeu reafirmo a eurodesilusão sem me colocar ao lado dos eurocéticos.
Uma das mais espantosas incongruências, que venho constatando nas esquerdas nacionais, quando se dizem contra o euro e contra a União Europeia, é esquecerem uma das maiores lições que as várias experiências falhadas de implementação do comunismo propiciaram:  por muito bem intencionadas que fossem as intenções primevas dos seus promotores a aplicação do modelo revolucionário a um espaço geográfico limitado só dificulta o seu sucesso e obriga ao recurso de práticas totalitárias. Porque o cerco de que se veem alvo, somado ao apoio exterior a quem se sente prejudicado com a nova realidade, tende a acossar as cúpulas dirigentes aos seus pequenos kremlins, privando-as do contacto com as massas populares com que teriam estado consonantes no início.
Entre Estaline e Trotski era este último quem tinha razão ao defender a impossibilidade de sucesso numa Revolução, que não ocorresse ao mesmo tempo na mais vasta extensão geográfica. As grandes fomes dos anos 20 e as purgas dos anos 30 confirmavam o vaticínio do antigo bolchevique entretanto assassinado no México.
O euroceticismo equivale a defender uma realidade em que seremos pequeninos e fraquinhos, porque incapazes de influenciar as grandes dinâmicas que uma sociedade globalizada irá conhecer, nomeadamente ao nível das ideologias e dos sistemas políticos.
Não é por acaso que os dirigentes progressistas do século passado prezavam tanto o internacionalismo. Por isso existiram organizações que, por um lado, agregavam os Partidos Comunistas, e por outro os Socialistas. Mesmo desavindos, uns e outros compreenderam a necessidade de convergirem com quem, nos demais povos do mundo, partilhava os seus próprios ideais e sonhos de futuro.
Nestes anos recentes lamentamos que a União Europeia tenha promovido os interesses neoliberais em detrimento dos seus cidadãos. Em vez de defender maior justiça e igualdade, tornou-se útil ferramenta dos interesses financeiros graças à ação dos milhares de burocratas sedentarizados em Bruxelas, Estrasburgo ou Frankfurt.
Sem pôr em causa o  projeto europeu vale a pena ser contra este em concreto, que não corresponde aos anseios dos povos. Mas será bem mais fácil apressar o fim do capitalismo e abrir caminho ao que lhe sucederá - aliando o que foram os anseios socialistas com as preocupações ecológicas perante um planeta cada vez mais doente - se a transformação abarcar quase todo o Velho Continente e passar por outro projeto europeu, que resulte da transformação deste ou renasça das suas cinzas.
Ao contrário do que sugeria o antigo secretário da Defesa de Bush filho (um Rumsfeld que também era … Donald!), a Europa possui, graças a toda a sua longa História, a capacidade de assumir a sabedoria ainda inacessível a outras geografias, seja porque ainda longe de atingirem o grau derradeiro da evolução capitalista, seja por terem cultivado idiossincrasias individualistas muito difíceis de se adaptarem a um tipo de sociedade sem emprego para todos e, por isso mesmo, obrigada a pensar-se em novos modelos de solidariedade como forma de escapar às ameaças da violência dos seus deserdados.

De derrota em derrota ...até ao impeachment fatal

A humilhante derrota de Donald Trump ao fim de apenas dois meses de mandato vem confirmar o que na altura perspetivei: ainda que assustador em quanto mal consegue fazer (basta ter o acesso ao tal botão capaz de deflagrar o Armagedão!), o pato-bravo depressa chegaria à constatação da incapacidade em traduzir os desejos por realidades, dado estas serem sempre bem mais fortes do que o seu incurável narcisismo.
O tão execrado Obamacare perdurará, porque os próprios republicanos não se entendem na forma de o eliminarem e já veem aproximar-se as eleições intercalares do próximo ano nas quais poderão pagar os custos das tolices contínuas do presidente. Por isso mesmo não será de espantar ver a Administração completamente paralisada porque alguns dos seus supostos apoiantes compreenderão que só dela se dissociando poderão ter a esperança de garantir a continuidade do emprego.
Há males que podem vir por bem, como pressupõe conhecido provérbio popular. É que o efeito de vacina é tal, que a viragem ideológica em sentido contrário torna-se bem mais fácil. Assim saibam os democratas ir potenciando estas borlas, que Trump, involuntariamente, lhes vai proporcionando. Nomeadamente não esquecendo de cativar esse eleitorado momentaneamente iludido pelo discurso marketeiro de quem agora lhe vai apresentando fatura tão pesada. Basta olhar para o rascunho do orçamento federal já conhecido: muitos dos programas eliminados - para que das respetivas poupanças se financie o grande crescimento das despesas militares - beneficiava precisamente esse eleitorado dos Estados vermelhos, que não tardam em sentir na carteira o ricochete da estupidez do seu sentido de voto. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Um parêntesis na História

Se me pedissem para escolher uma época em que Nova Iorque teria vivido uma época de rutura com os valores vigentes na sociedade norte-americana do seu tempo, não me lembraria de escolher o ano de 1951. Talvez porque ainda faltariam cinco anos para nascer, remetendo-o para a minha «pré-história». Seria bastante lógica a opção pelo verão de 1969, quando Woodstock simbolizava a revolta dos estudantes universitários contra a guerra do Vietname e a revolução hippie ainda não declinara nas expetativas de redundar num mundo diferente. Tinha então treze anos, andava fascinado pelas viagens das missões Apollo e olhava com estranheza, mas também fascínio, para os acontecimentos vindos de além-Atlântico, mesmo filtrados pela censura do fascismo.
Um documentário inglês dá-me bons exemplos de como, apesar de se viver no macartismo e na segregação racial, Nova Iorque polarizava novos tipos de criatividade, que influenciariam as diversas artes nas décadas seguintes. Jack Kerouac na literatura, Thelonious Monk no jazz, Jackson Pollock na pintura ou Lee Strasberg com o seu Método, atiravam para a condição de obsoletas as formas de escrever, tocar, pintar ou representar apreciadas até então. Perdia sentido um tipo de arte bonitinha e entorpecente ao libertarem-se as emoções, que estilhaçavam aquele pequeno mundo feito de donas-de-casa ainda competentes a conterem o desespero, de chefes de família investidos na condição de operários ou mangas-de-alpaca apenas interessados em terem emprego certo e receberem um relógio de ouro ao fim de trinta ou quarenta anos de subserviência aos patrões sem nada lhes questionarem ou aqueles jovens atoleimados ocupados em imitarem os modelos dos mais velhos.
Não terá sido propriamente uma época de ruturas determinantes, porque a televisão em todos os lares trataria de garantir a uniformização dos gostos e das opiniões, mas esses exemplos de contracultura antes do tempo serviriam de pioneiros para a manutenção em lume brando de uma contestação, que explodiria de tempos a tempos e ainda tarda em manifestar-se no seu definitivo esplendor.
Nos anos setenta Fernando Namora foi visitar o outro lado do Atlântico e trouxe de lá uma opinião, que confirmei, quando por lá andei no final dessa década e lá voltei já neste milénio: nos vastos territórios entre o Canadá e o México coexistem muitas revoluções de sinal contrário. São como bolhas numa panela a ferver, que se digladiam por chegarem à superfície, rebentam em vapor sugado pela chaminé, e dão lugar a outras, suas semelhantes. Por isso é enganador olhar para Trump e encarar-lhe os apoiantes como se representassem toda a América. Mesmo sendo muitos, demasiados!, eles correspondem a uma parcela ínfima dessa realidade em constante mutação.
É essa a razão, porque vejo Trump como um parêntesis sem grande importância, quando analisado daqui a duas ou três décadas. Na sua insignificância ficará na História como eloquente demonstração do erro de se confundir Democracia com a possibilidade dos povos elegerem quem queiram. Ela é muito mais do que isso!

quinta-feira, 23 de março de 2017

Provas que se somam a muitas outras já conhecidas

1. As provas são múltiplas e não podemos deixar de as ir recenseando: ao arquivar o dossier da lista VIP sem ouvir os principais dirigentes nele envolvidos, o Ministério Público volta a dar mostras da sua costumada prática: tudo quanto sejam suspeitas sobre políticos socialistas são para levar até ao fim, se possível com fugas seletivas para os jornais a fim de os culpar antes sequer de serem acusados. Mas se as dúvidas envolvem políticos de direita, os casos são apressadamente arquivados por «falta de provas».  Mesmo quando eles são tão chocantemente evidentes, que só cegos voluntários os não querem ver.
Pudera! Se não se quer sequer investigar, como será possível encontrar os factos comprometedores?
2, As provas sobre a incompatibilidade de Carlos Costa para cumprir com  irrepreensível competência o cargo de governador do Banco de Portugal também são muito mais do que as suficientes. Acrescentemos-lhes agora mais uma, na expetativa de não tardar muito a gota de água, que faça extravasar o copo, ou por outras palavras, forçar a sua demissão.
Soube-se agora que, numa reunião realizada nos primeiros dias de dezembro de 2013, os responsáveis do Banco pela supervisão reuniram com a administração propondo que se retirasse a idoneidade a Ricardo Salgado. Numa atmosfera muito tensa, os subscritores da proposta apresentaram argumentos irrebatíveis, mas Carlos Costa opôs-se-lhes conseguindo que o Grupo Espírito Santos levasse as suas guerras internas até ao fim, enganando milhares de clientes e prejudicando sistemicamente todo o sistema bancário nacional.
3. Há dezenas de anos que não vejo o Festival da Eurovisão, nem sequer o que entre nós se organiza para escolher a canção destinada a ali representar a «música» portuguesa.  Mas o boicote ucraniano à participação russa no concurso deste ano, confirma-o como peça de uma estratégia política, que nada tem a ver com as cantorias. 
A atitude ucraniana apenas segue a lógica desesperada de um governo, surgido de mais um daqueles golpes cirúrgicos em que a CIA e outras agências de espionagem ocidental se especializaram nos anos Obama, e que terão agravado, mais do que verdadeiramente beneficiado os povos que supostamente seriam por eles «libertados».

Um tranquilo debate quinzenal

Esta tarde estava preparado para assistir ao debate quinzenal, quando os atentados terroristas em Londres vieram inibir os canais de notícias de darem dele o registo habitual. Como alternativa mudei para o Canal da Assembleia da República para ver respondida a minha curiosidade: tendo vivido duas semanas desastrosas, como iriam as direitas manter a tensão dos debates anteriores? É que estava a verificar-se uma tal escalada no insulto, na mentira, na deturpação da realidade, sempre com o objetivo de provocar a periclitante fleuma de António Costa, que o interesse residia em assistir à estratégia para tornearem a total falta de argumentos e sustentarem uma oposição verbalmente violenta, mesmo sem substância.
As duas horas de debate constituíram um passeio para o primeiro-ministro, mesmo quando Assunção Cristas e Luís Montenegro tentaram colar Djesselbloem à família socialista europeia. Tiros sem pólvora, claro: quer António Costa, quer Augusto Santos Silva já tinham mandado rezar a extrema-unção à carreira política do holandês. E nem mesmo a Caixa Geral de Depósitos lhes avivou o desânimo em que parecem ter caído. Com os indicadores publicados e a publicar pelo INE, que papel resta às direitas senão o de embatucarem e irem bebendo uns chás de tília?
Nunca vislumbrando outra alternativa, que não fosse a receita neoliberal, deve-lhes ser desconcertante encararem com uma realidade capaz de lhes negar os mais arreigados dogmas em que politicamente se formataram.

quarta-feira, 22 de março de 2017

A eficiência e a dignidade de uns vs. a mentira e o nepotismo de outros

1. A rapidez com que as autoridades reagiram ao risco de grave acidente no viaduto de Alcântara demonstra a seriedade com que hoje se encara a prevenção de males maiores.
A paragem do tráfego rodoviário e ferroviário pode causar graves transtornos à circulação num eixo fundamental da cidade, mas constitui uma inflexão digna de elogio em relação à prática de esperar para ver, que tanto norteava a prática do anterior governo.
Já não vivemos tempos em que se empurrem os problemas com a barriga ou see escondem debaixo do tapete, procurando dar-lhes solução atempada.
Exceção à regra? A enorme dívida soberana seriamente agravada nos anos da troika. Mas aí não deixa de ser judicioso aguardar pelo resultado das eleições alemãs. É que cresce a probabilidade de Martin Schultz  empurrar Merkel para a reforma, dando início a uma nova atitude nas políticas europeias.
2. O homem já anda combalido desde a semana passada, quando o seu partido quase foi varrido do parlamento holandês, mas a posição oficial portuguesa de exigir a demissão do presidente do Eurogrupo contrasta com a diplomacia subserviente dos anos passistas.
Sabe bem ter um governo, que não se intimida perante os que se julgam mais fortes, argumentando-lhes com posições de princípio para os remover de onde não merecem estar, quanto mais não seja por não conseguirem disfarçar a boçalidade, que lhes ensombra a mente.
Esperemos que a teimosia de Schäuble não baste para abrir um guarda-chuva protetor a quem dele mais não foi que servil vassalo.
3. Outro subordinado, sobre quem quase ninguém insiste em defender, é Durão Barroso, que se juntou a Santana Lopes no coro dos descontentes com o livro de José Pedro Castanheira sobre os anos da presidência de Jorge Sampaio.
No seu caso não terá gostado da denúncia de só ter avisado o presidente quanto à iminência da cimeira das Lajes a quarenta e oito horas dela acontecer, confrontando-o com o seu facto consumado.
Procurando desculpar-se, o atual serventuário da Goldman Sachs veio afirmar que recebeu o telefonema de Aznar e logo telefonou para quem dependia institucionalmente. O que todos os conhecedores do caso desmentem, havendo quem afiance ter Barroso alinhado na fantochada onze dias antes.
Mas existe outro elemento que confirma a mentira de Barroso: é regra estabelecida que as deslocações dos presidentes americanos no Air Force One exigem setenta e duas horas de preparação, pelo que Bush já se sabia nos Açores com tal antecedência.
A quem pretenderá Barroso ainda enganar?
4. Qual a dose de nepotismo, que os norte-americanos estarão dispostos a tolerar até correrem com Donald Trump da Casa Branca?
Por agora a indignação por genro e filha terem aí gabinetes ainda não justifica a impugnação por que suspiramos (muito embora o vice-presidente seja tão assustador quanto o pato-bravo!), mas o copo vai enchendo. E foi um conhecido chinês que constatou bastar uma faísca para que toda a pradaria se incendeie! 

Figurantes sem espaço na paisagem

Há por aí muita gente que está morta politicamente, mas ainda não deu por isso. Apesar de serem mais do que muitas as evidências nesse sentido.  Um deles é Jeroen Djesselbloem com o qual já não vale a pena gastar mais latim tão viral se tornou a indignação institucional e as das redes sociais contra as infames afirmações com que insultou os países do sul da Europa.  Quando se trata de encontrar explicação para o abrupto desastre dos sociais-democratas holandeses nas eleições da semana transata, basta considera-lo como um dos seus rostos maiores: não são só as vítimas europeias do austericídio de que ele foi um dos principais entusiastas a execrá-lo. Os compatriotas devotaram-lhe idêntico sentimento de rejeição.
Outros zombies a carecerem de golpe de misericórdia são os velhos fascistas do PNR ou a reciclada versão dos que quiseram promover e promover-se à pála de Jaime Nogueira Pinto.  O confronto verbal de ontem na FCSH constituiu o ligeiro sobressalto de um vulcão em vias de extinção. É que, por uma vez em muito tempo, Clara Ferreira Alves acertou em recente crónica, quando lembrou exaustivamente o que significaram os sinistros anos do salazarismo, que tais trogloditas insistem em sacralizar.
Idêntico definhamento conhecem os que, nas direitas, andam sempre à espera de notícias, que lhes aticem a pálida ilusão quanto a recuperarem o «pote». Mas ele vai ficando sempre mais distante, seja porque a descida do desemprego conhece ritmos desconhecidos há quase três décadas seja porque a atividade económica em fevereiro confirma a dinâmica do crescimento dos meses mais recentes. Com tal cenário quem, senão apenas os indefetíveis, acedem a servir de cordeiros à expectável degola de outubro?
Penosa vai sendo a tarefa dos opinadores das direitas nas várias televisões: por mais imaginativos, que queiram ser, não há criatividade bastante para almejarem escamotear os sucessos da maioria parlamentar.

terça-feira, 21 de março de 2017

O novo cavalo de batalha das direitas na CGD

As esquerdas ainda teimam em não aprender as lições que tudo quanto tem sucedido na Caixa Geral de Depósitos nos últimos meses, lhes já deveriam ter facultado.
O novo cavalo de batalha de Passos Coelho e de Assunção Cristas contra o banco público é o de contestarem os balcões, que irão encerrar um pouco por todo o país.
Perante a ladainha das direitas o que deveriam ter feito as esquerdas? Em primeiro lugar denunciarem-na como mais um exemplo de hipocrisia de quem andou anos a forçar a inevitável privatização, acabando por arrastar o maior banco nacional para a hecatombe em que deixaram todo o setor bancário. Depois, sem suscitarem parangonas, teria sido judicioso reunirem com Mário Centeno e Paulo Macedo para garantirem aquilo que eles já se apressaram a confirmar: não só existirão balcões em todos os concelhos do país como não deixarão de existir caixas automáticas nas zonas mais desertificadas. (Não seria má ideia localizarem-nas nas juntas de freguesia, que aí costumam funcionar como centros de apoio aos mais idosos).
A realidade bancária é hoje completamente diferente da que conhecemos até há relativamente pouco tempo. Quantos costumam ainda frequentar as agências se mais rapidamente podem resolver o que precisam nas caixas automáticas?
A mera constatação dessa inevitável evolução e o quanto exige estratégias incontornáveis na gestão do setor bancário deveria ser acolhida pelas esquerdas como elas sempre estariam obrigadas a concetualizar nas suas ações: se existem dinâmicas irreversíveis, é estúpido gastar energias a contrariá-las. O desafio de quem se considera progressista consiste em canalizar essas dinâmicas para a direção mais conveniente para o interesse coletivo. Aquilo que precisamente as direitas não querem nem conseguem entender.

segunda-feira, 20 de março de 2017

A independência que o poder judicial não tem sabido merecer

Entre mim e Jaime Santos subsiste divergência antiga a respeito da Operação Marquês e do que ela tem significado para a imagem do antigo primeiro-ministro e do próprio Partido Socialista.
Em relação ao post desta madrugada ele comenta através do seguinte texto:
“Não percebo bem a crítica a Sousa Tavares. Nesta matéria do processo de José Sócrates, ele tem consistentemente atacado os sucessivos adiamentos e violações do Segredo de Justiça. Parece-me antes o meu caro que confunde esta investigação com um mero ataque ao PS.
Já disse e repeti isto várias vezes. O julgamento político de José Sócrates foi feito em 2011 e mau grado a eleição de Passos e de Portas, ele não foi brilhante para o ex-PM.
O julgamento moral cabe a cada um, mas pela minha parte, considero que Sócrates não tem uma perna para se segurar, depois das mentiras à imprensa sobre a origem do dinheiro e dos contornos pouco claros de um empréstimo informal que não envolveu bancos, letras de crédito ou quaisquer documentos escritos.
O comportamento de Sócrates deixou-o naturalmente à mercê de suspeitas e de uma investigação que qualquer sistema de Justiça teria necessariamente de conduzir, tratando-se de uma pessoa politicamente exposta.
Pior, Sócrates colocou em cheque todos os que o defenderam e trabalharam com ele e mesmo pessoas da sua intimidade. João Miguel Tavares já esfrega as mãos em preparação para o ataque ao PS que virá depois da mais que provável acusação.
Falta, como bem disse MST, o julgamento judicial (se houver acusação e esta for confirmada depois de uma abertura da instrução), que cabe aos tribunais e que é completamente independente dos dois julgamentos que referi acima.
Existe infelizmente algo em comum entre os detratores incondicionais de Sócrates e os seus fãs incondicionais, que é o de quererem misturar tudo. Os primeiros porque já o condenaram antes mesmo do julgamento e sequer do conhecimento completo das provas e da acusação e que, seja ele culpado ou inocente dos crimes de que é suspeito, desejam que ele sofra na cadeia pela sua condução da política nacional e que por isso não se importam que princípios básicos do Estado de Direito sejam violados. Os segundos, porque parece que assim é mais fácil acreditar que tudo isto não é mais que uma cabala contra o PS…”
Na realidade, entre mim e Jaime Santos não existem grandes divergências  quanto ao tipo de sociedade, que ambos defendemos, muito embora eu teime no socialismo inequivocamente marxista e ele na social-democracia. No entanto move-nos o mesmo desejo de contribuirmos para uma sociedade livre, justa e, tanto quanto possível, igualitária.
Já quanto ao antigo primeiro-ministro a divergência é maior, porque, independentemente dos tais juízos morais que uns fazem e outros não (e mesmo reconhecendo terem existido posições que nele me desagradaram!) não duvido da tese da cabala contra o Partido Socialista. Seja porque os agentes da Justiça deixaram-se inebriar pela possibilidade de virem a ser o poder mais forte neste século XXI (foi-o proclamado por um dos seus principais dirigentes, Rui Cardoso), seja por terem constatado no governo de José Sócrates a vontade política de cercear-lhes algumas das mais obscenas mordomias, a intenção foi clara em convergirem forças com quem manda nos jornais (e sobretudo nos pasquins) para tudo fazerem no sentido de perdurarem as direitas no poder enquanto tal fosse possível.
Mas, se olharmos mais para trás, ainda poderemos encontrar prequelas desse intento conspirativo no fim do guterrismo, quando o caso da pedofilia na Casa Pia deu injustamente cabo do percurso político de um dos mais competentes e talentosos dirigentes socialistas de então, Paulo Pedroso, e chegou a enlamear outros de irrepreensível probidade, como chegou a acontecer com o atual presidente da Assembleia da República.
O que a Operação Marquês tem demonstrado é  uma Justiça suficientemente lenta a investigar os casos que envolvem políticos das direitas (Portas com os submarinos, os cavaquistas com o BPN) para que os indícios de corrupção atinjam o prazo de prescrição, mas assanhada com quem é socialista.
Quer isto dizer que José Sócrates ou Armando Vara que a ele é comummente associado, estão inocentes?  Até que nos provem o contrário sim, pois é esse o princípio de presunção de inocência, que urgiria ser respeitado.
Mas o caso é ainda mais grave quando nem sequer  sobra a mínima dúvida sobre quem passa para os jornais os conteúdos das peças processuais como forma de assegurar o julgamento em praça pública sem o concretizarem na barra dos tribunais. A violação constante do segredo de Justiça é crime, que Joana Marques Vidal não quis investigar nem sancionar, sabendo como estilhaçaria assim todo o edifício pútrido, que ainda lidera.
Não podemos é aceitar um país onde se prenda para investigar, se prometam sucessivos prazos, que nunca se chegarão a cumprir, e se viole ostensivamente o direito ao bom nome sem qualquer prova que o ponha em causa. Ademais com custos, que seria bom conhecermos: quantos milhões de euros já nos custaram as investigações da equipa de Rosário Teixeira ao longo destes anos? Pode a Justiça suportar um tal desperdício de recursos?
Pessoalmente acredito que somos muitos a desejar que o poder executivo e o legislativo ponham na ordem o judicial, que se tem revelado incapaz de merecer a independência, que lhe deveríamos reconhecer.


Notas soltas de um calmo fim-de-semana

1. Na sua edição dominical o «Público» traçou o perfil de Rosário Teixeira procurando dar-lhe uma imagem favorável. Mas a realidade é como é e o jornalista Samuel Silva encontrou quem o diz «mau acusador» nos processos da sua responsabilidade, conseguindo uma taxa muito baixa de condenações.
Há também o pormenor não despiciendo de ter feito carreira à sombra do apadrinhamento de Fernando Negrão, o que explica a aparente sanha antissocialista nas suas investigações. A realidade é que o percurso profissional esteve ascendente sempre que o deputado do PSD estava em condição de o ajudar na Polícia Judiciária ou no Ministério Público, tornando-se irrelevante sempre que perdeu os favores da hierarquia.
Cabe, pois, perguntar se as críticas de Joana Marques Vidal significam ter sido escolhido como elo mais fraco de um processo destinado a saldar-se num clamoroso fracasso?
2. No «Expresso» deste fim-de-semana foi possível detetar o desalinhamento de alguns dos seus principais redatores com o que se vai passando à direita. Se o suplemento de «Economia» continua porta-voz dos teimosos austeritários (com a louvável exceção de Nicolau Santos!), o primeiro caderno já começa a dar sinal de algum distanciamento para com os disparates do seu campo político.
Comece-se por Pedro Santos Guerreiro que ajuíza a escolha de Teresa Leal Coelho para Lisboa como uma “excelente notícia” para o PS e para o CDS. “Passos Coelho pode começar a escrever dois discursos, um de derrota, outro de saída”.
Martim Silva encarrega-se de não poupar um dos mais ridículos “senadores” da direita: “o único problema de Santana é que ao falar do tempo em que foi primeiro-ministro faz-nos lembrar desse período. E o julgamento não é meigo para ele.”
A terminar, e confirmando a sua bipolaridade, Miguel Sousa Tavares retoma a Operação Marquês para questionar os que insistem em culpar José Sócrates antes sequer de ser conhecida qualquer acusação (se é que alguma vez a ela chegaremos!): “Por ora, faço apenas uma pergunta: aqueles que já decidiram de há muito que ele é culpado, se um dia se virem a contas com a Justiça, gostariam de ser tratados da mesma maneira? Pois eu não, Prefiro o conforto daquilo a que nos países civilizados se chama Estado de Direito.”
3. A notícia já tem vários dias, mas vale a pena trazê-la de novo à baila: entre 2005 e 2015 mataram-se 142480 raposas em território nacional.
Tratando-se de admirável animal, para quando ouviremos os partidos políticos, mormente o PAN, a propor legislação a proibir as batidas e outros modelos de caça, que tendem a reduzir a presença da espécie entre nós?
4. A última nota deste texto vai para os apreciadores de roupa barata em lojas, que a importam de países onde os operários são pagos com salários de miséria e obrigados a trabalhar em ambientes infectos e propícios aos acidentes. Na antiga Birmânia, atual Myanmar, os trabalhadores contratados para a produção de peças para a HM estão em luta por condições mais dignas de remuneração e de segurança.  Se forem bem sucedidos, será expectável que a marca sueca cuide de deslocalizar a produção desse país para outro ainda mais miserável, onde os custos diminuam e as suas margens de lucro exponenciem.
Para quando um levantamento ético contra as insígnias que beneficiam com o lado mais perverso da globalização?


sábado, 18 de março de 2017

Marcelo a ver a sua estratégia a andar para trás

Até agora Marcelo tem sido acolhido em festa nos sítios onde se desloca. Hoje, porém,  já não foi assim, quando se confrontou com manifestantes descontentes com a possibilidade de se prospetar petróleo na Costa Algarvia.  Tratando-se de um dos muitos problemas herdados de Passos Coelho, para quem não havia qualquer óbice em estragar tão importante zona turística, conquanto se desse satisfação aos interesses dos que andam a causar terríveis crimes ambientais, sentiu-se em Marcelo o incómodo de já não ver à volta quem dele pretenderia selfies ou abraços.
A semana não está, de facto, a correr bem para o inquilino de São Bento se levarmos em conta o que Ângela Silva, hoje assina no «Expresso».
Jornalista conotada com a direita e habitualmente muito bem informada sobre o que se passa nos seus bastidores, ela dá conta da insatisfação de Marcelo pela escolha de Teresa Leal Coelho para candidata à Câmara de Lisboa. É que, segundo aí se conta, ele ansiaria por dobrar finados por este Governo de maioria de esquerda substituindo-o por outro, conotado com o tal «arco da governação» que António Costa deu como morto e enterrado, mas Marcelo pretenderia ressuscitar como forma de facilitar a vida àqueles por cujos interesses cuidou de conquistar a presidência. Explica-se assim a hipótese por ele explicitada de não enjeitar Passos Coelho como primeiro-ministro na segunda metade do seu mandato.
O projeto passaria, pois, por uma coligação PSD/CDS que, mesmo não conseguindo mais votos do que o PS, fosse suficientemente forte para se impor numa coligação contra as demais esquerdas, novamente marginalizadas para a função de inconsequente oposição.
Uma pugna eleitoral em que veremos  Assunção Cristas e Teresa Leal Coelho a digladiarem-se para ver quem fica à frente uma da outra, e com Fernando Medina a assistir da varanda do município ao afundamento das adversárias, poderá significar - segundo pensam os círculos próximos de Marcelo - ao defraudar das suas expetativas. Para as quais, segundo  as mesmas fontes, ele até contaria começar 2018 a revelar maior exigência para com o governo de António Costa , minimizando-lhe os bons resultados e sempre apostando na necessidade de bem mais.
Das peças jornalísticas hoje publicadas no semanário em causa, é esse texto de Ângela Silva que deveria merecer leitura atenta. Porque está lá escarrapachado tudo quanto tem justificado o meu reiterado alerta para a malignidade de Marcelo em Belém. Para a qual as esquerdas terão de ser muito inteligentes se não quiserem deitar a perder tudo quanto se recuperou neste último ano.
É que, agora não se trata de lá ter uma múmia putrefacta como a que, anteriormente, assombrava os corredores daquele palácio, Quem agora o habita é alguém que pretende investir a sua superior inteligência e capacidade estratégica em minar o atual governo e estilhaçar a convergência  das esquerdas.
Vale-nos que Passos Coelho lhe tem dificultado a tarefa. Mas as esquerdas deverão fazer todo o possível para, não lhe dando qualquer hipótese de sucesso, o levarem a abdicar da candidatura a um segundo mandato. Para tal será necessário que as direitas continuem a revelar-se tão ineptas que a sua travessia no deserto se revele, se não definitiva, pelo menos muito prolongada. Razão para as esquerdas continuarem a apostar no seu mínimo denominador comum e secundarizarem o que mais as divide.