quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Quod erat demonstrandum!

1. Ferreira Fernandes aborda a campanha ignóbil que a imprensa tabloide inglesa anda a alimentar contra Jeremy Corbyn com a ajuda de obscuro (mas decerto bem remunerado) crápula, que procurará servir de muleta para impedir o que se torna incontornável no futuro próximo: a vitória trabalhista em eleições, que arredem definitivamente os conservadores e os fascistas do UKIP. Eis o que de substantivo se relata em tal texto: “A esquerda trabalhista britânica volta a ser alternativa para governar. Talvez isso possa explicar o surto de notícias sobre alegadas ligações dos serviços secretos da então comunista Checoslováquia, na década de 1980, com o atual líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn. Um antigo espião checo - Ján Sarkocy, expulso da Grã-Bretanha, em 1989 - diz que Corbyn foi pago por si para dar informações.”
2. No “i” Joana Mortágua responde a Pedro Nuno Santos a respeito do texto da semana transata sobre os desafios colocados à decadente social-democracia. Porque, no essencial, concordo com o texto da dirigente bloquista aqui ficam os três parágrafos mais esclarecedores:
“Num mundo globalizado de offshores e patrões internacionalizados, as ameaças de deslocalização da produção e de fuga de capitais são sempre quem ganha o braço-de-ferro entre privado e público. A política de redistribuição da social-democracia assenta na capacidade do Estado de recolher impostos suficientes para financiar serviços públicos universais. Mas como praticar uma política redistributiva eficaz quando as grandes empresas fogem para a Holanda em busca de borlas fiscais? (…)
Estes desafios agora lançados ao PS para resgatar a social-democracia não respondem à pergunta principal: como se protege o Estado social do saque permanente dos mercados financeiros numa economia de casino global. A resposta está na robustez do setor público, e o contraste pode ser feito com Jeremy Corbyn, que não tem saudades das regras europeias e dá sinais de querer um setor público significativo. Talvez por isso o Partido Trabalhista esteja em contramão também no apoio eleitoral.
Só o controlo público dos bens e setores estratégicos permite ao Estado intervir na economia e garantir serviços públicos fortes. Porque territorializa uma boa parte do investimento e do capital que as privatizações ofereceram aos mercados. Porque garante que empresas importantes não são desmanteladas, como aconteceu com a PT, nem saqueadas, como está a acontecer com os CTT. Porque dá ao Estado poder para impor outros fatores de competitividade que não a desvalorização salarial e a competição fiscal. E porque o setor público não foge para a Holanda para não pagar impostos.”
Apesar de vir de um partido diferente do meu, limito-me a assinar por baixo.
Quod erat demonstrandum!

Cordialidade, lobbying e números elucidativos

1. Pode-se dizer que sabe a pouco, mas constitui mudança assinalável a boa educação, que volta a vigorar entre os líderes dos dois principais partidos nacionais, capazes de dialogarem sem arrogâncias nem despeitos, apenas pensando no que melhor poderá servir o interesse dos cidadãos. E dada como definitivamente morta e enterrada a malfadada fórmula do «arco da governação» torna-se natural que acordos alargados de regime interessem a todos os partidos e não apenas aos que costumavam ser tidos como os que neles deveriam ser implicados. Algo que Marcelo Rebelo de Sousa parece ainda não ter intuído, porque preocupado em apenas comprometer o do governo (hélas!) e o da sua particular estimação. Mas há coisas que nem com milhentos abraços ou selfies lhe conseguem traduzir os desejos em realidade...
2. Um dos antecessores de Rio na presidência do PSD - Durão Barroso - anda agora nas bocas do mundo por causa do efetivo lobbying em Bruxelas, junto da Comissão Europeia a quem prometera nunca tal vir a fazer. Mas, sendo exemplo típico do medíocre que, à custa de inesgotável arrivismo, conseguiu alcandorar-se muitos patamares acima do que justificavam os talentos, em que poderia justificar o ordenado da Goldman Sachs senão fazendo render a sua agenda de conhecimentos? Como comentava Rui Tavares no «Público» de hoje, essa sensação de nada de melhor ter a dar ao patrão senão o exercício da «cunha», mesmo que mais sofisticada, “ o mínimo que podemos dizer é que foi mais forte do que ele. Com Durão Barroso, é sempre mais forte do que ele.”
3. Um estudo da OCDE, citado por Nuno Serra no blogue «Ladrões de Bicicletas», mostra que, entre 2013 e 2015, Portugal era um dos piores países para trabalhar, tão elevada era a insegurança do mercado do trabalho e tão parcas as remunerações. O documento revela-se particularmente pertinente por responder eloquentemente aos insultos de Ferraz da Costa, quando se andou a carpir de sermos um país de madraços em que os pobres patrões se esforçam por encontrar alguém de jeito para trabalhar nas suas empresas.
Redarguia Marco Capitão Ferreira no «Expresso»: “os nossos trabalhadores são reconhecidos quando emigram, contratados cá pelas melhores empresas do Mundo. E não somos, não somos mesmo, um povo de pessoas que não querem trabalhar. Faltam-nos é patrões de jeito.”
O referido Nuno Serra não deixou de prever o conteúdo da próxima intervenção do antigo patrão da CIP, hoje à frente de um forum injustificadamente apaparicado pela imprensa e pelo inquilino de Belém: “perorar, muito preocupado, sobre o declínio demográfico e a quebra da natalidade em Portugal, apontando desta vez o dedo aos jovens casais pelo facto de não quererem ter filhos e, com o seu egoísmo, se recusarem a contribuir para a disponibilidade de mão-de-obra (de preferência barata), numa Europa demograficamente cada vez mais competitiva.”

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Os despojos do dia (internos e externos)


1. Mais do que campeonatos da Europa desta ou aquela modalidade, importa é levar o país a ganhar troféus com substância naqueles que têm a ver com o bem estar das populações, e não apenas com a autoestima de alguns. Por isso se se aponta como positivo o facto de Portugal figurar nos vinte primeiros lugares dos países onde há menor probabilidade de um bebé morrer no primeiro mês de vida, esse 17º lugar não nos deverá contentar assim tanto. Bom, bom, será quando também aí subirmos ao pódio.
2. Quer António Costa, quer Pedro Marques já saudaram a disponibilidade do novo PSD para consensos em reformas para o país, mas muito corretamente reafirmaram a importância de para elas serem convocados os demais partidos da maioria parlamentar. E com a linha vermelha devidamente sublinhada na discussão sobre o futuro da Segurança Social: que ninguém volte a propor cortes nas pensões.
Num contexto em que as coisas correm bem ao governo a eventual colagem do PSD ao esforço investido num país melhor na próxima década poderá isolar o CDS no radicalismo extremista, que caracteriza Assunção Cristas & Cª. Reduzindo-o novamente à dimensão do partido do táxi.
3. Continua a proliferar na opinião publicada em jornais ou comentada nas televisões o elogio a um político do CDS por ter saído do armário.
Tenho-me eximido de referir o assunto, mas vejo-o tão badalado, que me apetece adotar uma máxima anarquista com quase meio século e considerar que se a homossexualidade de Adolfo é um facto, o problema é dele e de quem com ele privar.
4. Os nuestros hermanos continuam a ter da noção de vizinhança uma conceção muito egoísta, como se o lixo do seu quintal não seja problema, mesmo quando extravasa para o nosso. Inteiramente justificados, pois, os protestos sobre a exploração a céu aberto em Retortillo a 40 quilómetros da nossa fronteira. Até porque deste lado já se conhece de ginjeira o hábito de as concessionárias ficarem com o lucro do negócio e deixarem para os prejudicados os encargos com a limpeza dos danos ambientais que causam.
5. Excelente notícia a do iminente acordo das milícias curdas de Afrin com Bashar al Assad, que isola ainda mais Erdogan numa altura em que este julgaria contar com a Rússia e com o Irão para lhe salvaguardarem as costas dos arrufos com Trump.
Nunca considerei natural a cumplicidade dos curdos com os EUA, mas não imaginei provável este realinhamento, que tende a clarificar a consolidação do regime sírio e a perda de influência da NATO num espaço geográfico, que não deveria ser sequer o seu. Aliás, bem vistas as coisas, a NATO, tal qual sucedeu com o Pacto de Varsóvia, já nem deveria existir...
6. Potencialmente determinante poderá ser a revolta estudantil norte-americana contra Donald Trump e a National Riffle  Association após o mais recente massacre numa escola secundária. Se o lobby  das armas é fortíssimo será bom que contra ele se erga uma forte oposição geracional, que tenda a denunciá-lo como perverso que é.
Num ano em que há eleições parciais para o Senado e para o Congresso esta súbita militância antirrepublicana poderá virar do avesso os mais recentes desequilíbrios políticos nas terras do tio Sam.
7. Perigosa é por outro lado a indigitação do ministro espanhol da Economia para suceder a Constâncio na vice-presidência do BCE tendo em conta que Guindos sempre foi um austericida entusiasta. E se Draghi vier a ser substituído por um alemão da pior estirpe, Centeno bem poderá sentir dificuldades acrescidas à frente do Eurogrupo.
8. De Espanha e da Alemanha vêm, entretanto, as notícias políticas mais inquietantes: a queda do fraco governo de Rajoy ainda não encontra uma oposição de esquerda suficientemente forte para lhe servir de alternativa, ainda vigorando o ilusório encanto de muitos com a receita liberal do Ciudadanos. Sanchez, Iglesias e Garzon estão obrigados a trabalhar bem mais para que as coisas mudem do estado letárgico, que tem existido desde que Zapatero se revelou um indesculpável flop.
Dececionante, igualmente, a mudança de Martin Schulz do Parlamento Europeu para a política interna do seu país: uma sondagem credível dá o SPD atrás da extrema-direita continuando a afundar-se em mínimos históricos. A receita implementada por António Costa tarda em ser adotada nos países onde mais sentido faria vê-la replicada...

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Um ostensivo cheiro a chantagem


O descaramento dos procuradores do Ministério Público já atingiu tal dimensão que não constitui propriamente uma surpresa a notícia de ter bastado Rui Rio anunciar a disponibilidade para acordos de regime sobre a Justiça, para que os apaniguados de Joana Marques Vidal logo anunciem uma investigação a Elina Fraga no dia seguinte a saberem-na designada vice-presidente do PSD.
A mensagem é óbvia: os responsáveis pela inaceitável politização do poder judicial, há quinze anos  - com a corrupta investigação sobre a  pedofilia na Casa Pia - a tentarem prejudicar continuamente o Partido Socialista de forma a perenizar a direita no poder, constituindo-se ela numa barriga de aluguer para a proclamada intenção de transformar a República portuguesa numa ditadura dos magistrados.
A História tem-nos ensinado - quer em Itália, quer no Brasil - que a judicialização da política tem criado as condições ideais para a emergência de um fascismo ordinário que empobrece os respetivos povos, os torna presa fácil dos demagogos mais insanos.
É só uma questão de comparar o investimento feito nestes últimos anos nas investigações (em tempo e em muito, mas mesmo muito dinheiro!) contra Armando Vara, José Sócrates, José Magalhães, Conde Rodrigues, ou mesmo Mário Centeno, com as avançadas contra o grupo cavaquista do BPN (incluindo Dias Loureiro), Duarte Lima e, sobretudo, Paulo Portas. Quantos dias de prisão, mesmo sem provas que os fundamentassem, para políticos socialistas e quantos para os dos partidos das direitas, esses sim com comprovativos indisfarçáveis das suas corruptas atividades?
 Não surpreende que, nas direitas, se exija com tão intenso vigor a renovação do mandato da Procuradora Geral: ela tem sido o seguro de vida para que os interesses vinculados às direitas sejam acautelados sem que ninguém os belisque. Ainda este fim de semana a múmia de Boliqueime veio acrescentar gás (por certo fétido) a tal esforço.
O que o grupo que conspira ativamente contra a prevalência dos valores republicanos na Justiça não pode aceitar é que o seu braço político mais forte se vire contra si. A intenção manifestada por Rui Rio para alterar os desequilíbrios acumulados nos últimos anos e traduzidos em indignas violações do segredo de Justiça, foi oralmente expressa por Paula Teixeira da Cruz, que não hesitou em considera-la uma traição. Daí esta tentativa ostensiva de chantagear a nova direção do PSD instando-a a não se afastar do trilho dos últimos anos. Acaso o façam ficam sujeitos a também se verem na via sacra da devassa da vida privada devidamente transposta para o vómito matinal em forma de uma coisa que tentam considerar um jornal.
Resta saber se Rui Rio se acobarda ou se se juntará a quem, conhecendo bem por dentro o antro donde saiu para exercer as funções de Ministra, estará em condições de proceder ao devido saneamento.
Apesar das pressões de Marcelo em contrário, importará começar pela caducidade do mandato da testa-de-ferro do grupo em causa tão só termine o mandato daqui a nove meses, oferecendo ao sucessor uma boa barrela com que comece a tratar das manchas que conspurcam a instituição.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O segundo capítulo de uma tragicomédia de fim-de-semana


No texto anterior já víramos como o congresso laranja tinha todas as condições para se converter numa tragicomédia em que poderiam coexistir as evidências de uma direita incapaz de ter uma ideia, mesmo que ténue, para  melhorar a vida dos portugueses, e, ao mesmo tempo, as cenas risíveis de uma coisa tida por séria, de súbito transformada em involuntário (pelo menos para os proclamados vencedores) gag burlesco.
Do lado da tragédia não pontifica apenas esse vazio ideológico, apenas cingido à fértil intriga de quem anda na política para cuidar o melhor possível da vidinha pessoal. Acrescem, igualmente, afirmações a roçarem o grotesco de tão descabidas, como a de se viver em clima de PREC ou a de António Costa ser o último dos moicanos de um Partido Socialista rendido aos encantos da «extrema-esquerda».  Que quem disse tais alarvidades o tenha conseguido fazer sem se escangalhar a rir, denotando acreditar na probabilidade de ser levado a sério, revela bem o grau zero a que chegou o principal partido da oposição. Mas entrou-se no reino da comédia, quando Rio convenceu Santana a formarem listas conjuntas para os principais órgãos do Partido, querendo assim demonstrar uma grande unidade interna, e não conseguiu sequer alcançar a maioria dos votos, ficando-se por 1/3 para o Conselho Nacional e por menos de metade para o Conselho de Jurisdição.
Percebia-se nesse conjunto de resultados a razão porque as televisões decidiram subalternizar as notícias do flop laranja no alinhamento das notícias, dando a primazia à vitória retumbante do émulo de Kim Jong-un em Alvalade. Paulo Dentinho, Ricardo Costa e Sérgio Figueiredo terão percebido que os tempos próximos não serão pródigos para quem gostariam de ver afirmar-se como alternativa viável à maioria de esquerda. E o primeiro sinal surgiu, logo, na sessão de abertura, quando se compararam as palmas atribuídas a Passos Coelho na despedida com as do agora chegado Rui Rio. Por muito que este fizesse profissão de fé no realinhamento do partido ao centro, os ali presentes reafirmavam a adesão plena à extrema-direita seja lá o que isso signifique para cada um deles. Qualquer observador de fora via claramente que o futuro prenuncia o PS a ocupar plenamente o centro político e muito mais próximo dos extremos situados à sua esquerda do que dos assumidos muito, mas mesmo muito, para a sua direita.
Passos Coelho saiu consolado do Centro de Congressos, porque, mesmo despejado para o caixote do lixo da História, teve direito a um suplemento de alma, que poderá dar-lhe melhor inspiração para o prometido livro com que imitará Cavaco no mistificado balanço quanto ao que julga ter feito (destruindo mais umas pobres árvores, que não têm culpa nenhuma da vaidade do presumido escrevinhador) e para as aulas  a lecionar nas universidades de que supostamente já terá recebido convites para mostrar a sua, até agora, desconhecida sapiência. Curiosa a dualidade de critérios da comunicação social, que tanto se insurgiu contra o currículo académico de José Sócrates e agora anuncia, sem levantar dúvidas, que um cábula com uma licenciatura arrancada a ferros, e a más horas, se arme agora em doutor!
O Congresso acabou por só ter algum interesse pela marcação do terreno dos que se assumem como querendo ser os senhores que se seguirão. Nesse sentido as apostas de Relvas e Marques Mendes ( Miguel Pinto Luz) ou de Marcelo Rebelo de Sousa (Carlos Moedas) passaram despercebidos face à prosápia de Montenegro, que talvez se engane na ideia de ganhar notoriedade mediática no comentário político para assaltar o arruinado castelo de que decidiu desertar. Será nessa vertente da história, que os próximos capítulos mais prometem ser palpitantes. Ou limitar-se-ão a ser igualmente entediantes?
Sentindo a fraqueza da nova liderança Nuno Morais Sarmento invocou a ajuda de Marcelo para que este a ajude com um comportamento mais impositivo face a António Costa. Há melhor confissão de impotência, que essa estratégia logo condicionada pelo facto de o narcísico recetor da mensagem estar bem mais preocupado consigo mesmo do que com o partido, que vê feito em cacos?
Indiferente a esse apelo Marcelo continua a ser Marcelo: elogia Passos Coelho  - para quando a distinção com a Grã-Cruz da Ordem dos me(r)díocres com palma e duas orelhas (de burro)? - e preocupa-se, sobretudo, com a sua tão querida brasileira de Pedrógão, que vê dela fugir a sete pés os que conseguira iludir para a Associação pensada para a sua afirmação pessoal e não para os fins inicialmente proclamados. A exemplo do universo laranja também as pequeninas cortes marcelistas vão dando sinais de se estarem a deslaçar.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

O primeiro capítulo de uma tragicomédia de fim-de-semana


Há quem faça gala em dizer-se incapaz de ler o «Expresso», não só para escusar-se a contribuir para o negócio da família Balsemão, mas também por sempre nele adivinhar textos capazes de lhes suscitar justificada indignação ao situarem-se invariavelmente muito à direita.
Discordo claramente desse posicionamento, mais emotivo do que racional. Não constitui regra imprescindível das teorias militares que se procure saber o que se passa no outro lado da trincheira? Como se pode vir a ser eficaz no combate a quem nela se situa se não se lhe conhecerem as estratégias?
A publicação em papel desta semana traz muitas matérias a merecerem o nosso comentário e por isso serão tratadas em mais do que um texto.
A começar temos a colaboração regular, que mais costuma merecer a minha atenção: o cartoon de António, normalmente capaz de por si mesmo substituir mil palavras. É o caso do que se passa esta semana com o calvário de D. Manuel Clemente, subitamente confrontado com o quão disparatada terá sido a mediática opinião sobre o sexo entre recasados. Por isso arranjou forma de tentar corrigir o erro, fazendo-se entrevistar pelo próprio diretor do semanário. Afinal  não teria querido dizer propriamente o que terá saído da sua pena. Pelo contrário nós é que somos culpados da situação, porque o teremos interpretado mal. Pondo-se no papel de vítima incompreendida, o cardeal quer sair bem no filme, mas foi tão evidente o seu ultramontanismo, que nem pintando-se de que cor fosse, conseguiria apagar mais uma significativa mancha no seu já escuro currículo.
Chamado também para assunto de capa veio Cavaco Silva de quem se publica extensa entrevista na Revista. Sem prejuízo do que sobre ela virei a comentar fica já sublinhado o grande objetivo dos editores, que dela selecionaram como tema preferencial o da renovação do mandato de Joana Marques Vidal. O que vai ao encontro do que se tem ouvido a vários participantes no Congresso do PSD: para a direita será fundamental que as coisas continuem tal qual estão no reino corrupto do Ministério Público. Quanto temem que, com a saída da Procuradora-Geral, a Justiça se manifeste menos zarolha e, em vez de parecer cingir-se politicamente ao que lhes convirá explorar, se passe a dar maior atenção a casos até aqui desprezados como os dos submarinos ou o da Tecnoforma!
É igualmente curiosa a preocupação do principal órgão de comunicação enfeudado às direitas em dar voz à sinistra múmia, que tanto mal causou a milhões de portugueses, apesar de por eles ter sido sucessivamente guindado aos principais cargos da República (o que nos fez, amiúde, desconfiar da sua sageza!). Será que querem preparar-lhe um vistoso funeral de Estado, quando alguém for suficientemente persuasivo para o informar de estar há muito morto e ninguém lhe ter dito nada? Se o filho do gasolineiro ainda tem alguma ilusão quanto a ser homenageado na mesma dimensão em que o foram Mário Soares e, sobretudo, Álvaro Cunhal, bem pode tirar o cavalinho da chuva. Nem a persistência dos seus tenazes admiradores bastará para que a cerimónia venha a ser pouco mais do que privada.
Saindo dos assuntos trazidos para a capa do primeiro caderno entramos na segunda página e, finalmente, Martim Silva consegue pôr António Costa a encabeçar os Altos da sua coluna sobre quem está em evidência pelo que ele ajuíza serem bons ou maus motivos. Nem o esforçado Martim consegue ignorar “o maior crescimento real deste século (…) em convergência real com a Europa.” Tal reconhecimento confirma que, na redação do «Expresso», se adivinham tempos difíceis para quem lhes vai no coração, politicamente falando. E isso é óbvio no tom lastimoso de Pedro Santos Guerreiro, diretor do jornal, no seu editorial. Pressente-se-lhe a angústia de constatar um Congresso laranja marcado pelo cinismo de quem aplaude Rio “com as mãos moles e a ponta e mola no bolso.” E, logo identifica quem se apresta a conspirar contra o novo líder: “São os da corte ameaçada, são os patinadores no gelo que nunca passam das ameaças e são as máquinas de calcular futuros, os seus próprios futuros. Ouve-se o barulho do acelerador mas cheira a embraiagem. Para meter a próxima mudança.” Pode-se não apreciar o que lhe vai na alma, mas tem de se reconhecer o bom estilo!  E acaba com um apelo lancinante: “[Rio] ganhou o direito de ser apoiado pelo partido que, antes dele, já sofria de raquitismo político, intelectual - e eleitoral”.
Na mesma página outro dos jornalistas mais conotados com a direita no semanário (Filipe Santos Costa) alinha as áreas sobre as quais seriam desejáveis acordos do Bloco Central e a que insiste em chamar «reformas estruturais»: a Justiça (ou seja dar ainda mais força aos que querem dela servir-se para conseguirem que a vontade expressa pelos eleitores  possa impedir coisas esdrúxulas como foi exemplo a investigação a Mário Centeno), o sistema político (ou seja o favorecimento de condições para maiorias absolutas de direita e limitações engenhosas às que se possam formar à esquerda), a descentralização (ou seja a criação de muitos cavaquistões) e a Segurança Social (ou seja privatizando-a e cortando a eito na “peste grisalha”). Por muitas ilusões que as direitas tenham quanto à exequibilidade de tal projeto não contará com o beneplácito de um Partido Socialista que, pela voz de Pedro Nuno Santos já veio esta semana expressar outra interpretação para o que considera reformas necessárias para o país.
Ficámos ainda assim a saber que, nem sequer entre os seus, Rio consegue ter garantidos apoios para as armadilhas internas, que lhe estenderão passo a passo, contando, ainda assim, na sua equipa com um valete cavaquista do gabarito de Nunes Liberato, que em Belém terá assistido e quiçá participado em muitas inventonas contra José Sócrates. Tratando-se de um notório cortesão da já referida múmia podemos depreender que o sentido da expressão «diz-me com quem andas…» faz todo o sentido para quem da política se cola a ajudantes de caudilhos tão pouco recomendáveis…

A Igreja face aos escândalos pedófilos


Uma das curiosidades que assiste a quem da Igreja Católica portuguesa vai aumentando a desconfiança face às recentes intervenções da sua figura cimeira e da forma como no seu seio se contesta o papado de Francisco, é a de se saber porque, ao contrário do sucedido noutras paragens, não surgiram revelações sobre as tentações pedófilas dos seus pregadores. Lembramo-nos do crime perpetrado pelo foragido padre Frederico na Madeira e pouco mais se sabe. Porquê? Porque têm mais contenção nas hormonas ou por esconderem melhor os pecados sob um eficiente manto de silêncio?
Por agora acompanhemos o que se passa alhures através do documentário de Jesus Garces Lambert, que o canal ARTE exibirá na próxima terça-feira. Longa-metragem de produção italiana inicia-se com a promessa de “tolerância zero” prometida por Jorge Bergoglio em 2013, quando se  crismou de Papa Francisco. Antevia-se, então, a possibilidade de se encerrar um dos mais sombrios capítulos da história católica punindo-se severamente os autores dos abusos sexuais.
Cinco anos depois, apesar do avanço no reconhecimento das vítimas, a crise está longe de se considerar resolvida. Há padres indiciados como pedófilos que continuam em funções, tentativas de abafar certas histórias suspeitas, dignitários a pressionarem os queixosos para não prosseguirem com os casos na Justiça. Compreende-se que os próprios membros da comissão pontifícia para a proteção de menores, eles próprios antigas vítimas, tenham-se demitido em sinal de protesto.
Os costumes não se parecem ter alterado no seio de uma instituição habituada à cultura do segredo. O documentário procura questionar quais as resistências, que gangrenam a mínima tentativa de reforma e como o Vaticano ainda se pode arrogar da prerrogativa de se pensar acima da Justiça civil.
De Lyon à Pensilvânia, da Argentina à Itália, John Dickie e Jesus Garces Lambert abordam diversos casos de abusos sexuais em parte desconhecidos, mas protagonizados por padres que aproveitaram o ascendente espiritual para satisfazerem os desejos pedófilos nas crianças sob sua responsabilidade espiritual. Mas pretende-se ir mais além do que colecionar um conjunto de casos sórdidos: graças ao testemunho das vítimas, de padres dissidentes, de outros que confessaram os seus pecados e de psicólogos, sondam-se os mecanismos que levam a Igreja a esconder tais situações.
Olhando para os factos históricos, culturais, sistémicos e psicossexuais, os autores tecem um requisitório tenebroso concluindo que faz parte da essência das instituições essa quase inexpugnável cultura do silêncio.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Um bom fim-de-semana para passear ou ler no silêncio recatado do lar


Este será um fim-de-semana de regabofe laranja nos telejornais, muito embora se sinta por parte das respetivas direções editoriais o lamento quanto à insuficiência de Rui Rio para ser rosto credível numa verdadeira alternativa ao governo de António Costa. Até mesmo uma entidade tão politicamente comprometida como o é a Sociedade Portuguesa da Católica-Lisbon vem reconhecer que os portugueses estão confiantes no governo para lhes dar satisfação dos problemas, que enfrentam, por muito que os autores desse estudo tentem passar pelo respetivo indicador como cão por vinha vindimada. Mas curiosa mesmo é a comprovação das instituições, que menos credibilidade merecem ao mesmo universo consultado pela sondagem esta tarde anunciada: os Bancos (o que não surpreende!) e … a Igreja Católica!
Que a conclusão provenha da universidade ligada a tal religião não deixa de ser elucidativa da progressiva distância que, graças às «sábias» opiniões de D. Manuel Clemente e outros pares igualmente «sagazes», os crentes vão alimentando em relação às afinidades com quem supostamente os iluminaria na sua fé. A menos que tenha crescido significativamente os que concluem pela irracionalidade de tal mundividência à luz dos avanços científicos e muitos mais se venham somar aos que, como eu, nos proclamamos ateus, ou, quanto muito, agnósticos.
Rui Rio não contará com uma estrada de tijolos amarelos, que o leve ao outro lado do arco-íris, mesmo com a presença de Adolfo Mesquita Nunes como representante da delegação do CDS ao Congresso. Ainda que tenha levado em conta o conselho de Churchill em ter do seu lado os que mais vontade têm de lhe espetar a faca nas costas, como o indicia o convite a Santana Lopes para presidir ao Conselho Nacional ou a Fernando Negrão para liderar o grupo parlamentar. Mas, igualmente conhecedores da máxima do antigo primeiro-ministro inglês, muitos dos principais inimigos internos de Rio - com o maligno Montenegro à frente de tal manada - escusam-se a sentarem-se a seu lado para melhor investirem contra ele tão só se confirme a esperada banhada que levará de Costa nas próximas eleições.
Em suma, mais um fim-de-semana para desligar as televisões e ir passear dadas as temperaturas quase primaveris ou aproveitar para ler um bom livro que os jornais continuam a ser aquilo que se sabe...