quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Rajoy tornou-me apoiante da independência catalã

Os meus sentimentos relativamente ao independentismo catalão são contraditórios. Por um lado existe o reconhecimento de que só devemos a recuperação da independência em 1640 ao facto de Castela ter de se haver com dois movimentos centrífugos , entre os dois, apostando na repressão do que grassava na Catalunha. Acaso a opção tivesse sido a de oprimir a nação portuguesa, quiçá a Catalunha seria hoje um país independente e nós uma parte no todo espanhol.
Há, por outro lado, a questão do regime: sou sectariamente republicano e execro a Monarquia como possibilidade de sistema político tendo em conta a importância por ela conferida à hereditariedade e não ao mérito e reconhecimento dos líderes pelos cidadãos através do voto democrático. Assim, se a Catalunha anseia implantar uma República, tem todo o meu apoio emocional, porque não reconheço aos Bourbons qualquer legitimidade para se manterem como representantes da nação castelhana.
Repugna-me, por outro lado, a ideia de secessionismo apenas por motivos egoístas de comunidades pretenderem dissociar-se das que delas dependem para manter um nível de vida mais elevado. Por isso antipatizo totalmente com os flamengos belgas ou com os padanianos italianos, só porque se consideram prejudicados economicamente pelos valões ou por quem vive no mezzogiorno e querem deles afastar-se. É esse o único motivo de apreensão perante as reivindicações catalãs, quando invocam a superioridade económica da sua região/Estado como motivo primeiro para se separarem. Reclamassem apenas a questão da cultura e da língua diferentes e não lhes colocaria qualquer óbice.
No entanto, perante a reação inábil, mas prepotente, de Mariano Rajoy a dúvida dissipa-se e prevalece o reconhecimento do supremo valor das populações ditarem o tipo de coletividade em que se querem inserir. Por isso, se dúvidas tinha, o impedimento da realização do referendo acaba por definir o posicionamento: hoje, mais do que anteontem, estou com os catalães contra o comportamento colonialista do governo de Madrid. 

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A Dialética destes dias

Os dias mais recentes têm sido férteis em notícias que confirmam a realidade contraditória em que sempre vivemos. Umas dão sinais positivos para o cumprimento das nossas aspirações, outras parecem dar razão às mais sombrias inquietações.
Comecemos pelas últimas e Trump teria necessariamente de ganhar o merecido destaque com o discurso de rufia pronunciado na Assembleia Geral das Nações Unidas. Vale-nos que, previdentes, os chineses já lhe puseram os pontos nos is: atreva-se o estarola a ir mais além do que as palavras e já sabe com quem se terá de haver. Na sua sagacidade habitual, Ferreira Fernandes conclui a sua crónica diária do «Diário de Notícias» com este diagnóstico: “Kim Jong-un é pírulas e dele tudo se pode esperar. Ainda mais grave do que o suicida que ameaça atirar-se do quinto andar, ele quer levar o prédio e até o bairro com ele. Mas, então, Trump goza e chama-lhe Rocket Man? O que eu quero dizer é seguinte: o gajo do quinto é maluco, mas o instigador do pátio é parvo.”
Notícia igualmente desencorajante para quem procura ver consolidado um Portugal melhor é a dos professores, que andaram a reclamar por serem colocados a grande distância de casa e que, na maioria, integravam o grande contingente de precários a quem o Ministério da Educação transitara para a condição de contratados sem termo. O exemplo perfeito daquela situação de se dar uma mão e logo se ver agarrado pelo braço todo.
Há exigências corporativas - caso dos enfermeiros, dos magistrados ou dos juízes - que pretendem pronta satisfação de todas as suas pretensões, quando sabem escasso o orçamento para todas elas contemplar. O que levava Pedro Nuno Santos a considerar dias atrás que “o que nós hoje temos é muitas áreas profissionais a sentirem que têm um governo que os ouve, que proporciona avanços, e portanto querem aproveitar o facto de terem uma maioria como esta para reivindicar coisas que sempre quiseram reivindicar no passado e para as quais não tinham interlocutor. Hoje têm!.”
Outro sinal ainda negativo dos tempos foi dado pela secretária de Estado Catarina Marcelino, que revelou ser de 16% a menos o salário médio das mulheres portuguesas em relação aos homens, com o acréscimo de serem elas as mais sobrecarregadas com  os trabalhos em casa e com a educação dos filhos, subindo essa diferença para 26% nas profissões mais qualificadas. E prenúncio de como isso poderá perenizar-se é o facto de estarem sub-representadas nos cursos de base tecnológica, que fundamentarão os mais bem sucedidos empregos no futuro.
Notícias de sinal positivo têm sido as que dão conta da redução significativa de licenciados no ensino privado (menos 41% em dez anos) o que se conjuga com uma importância acrescida das Universidades e Politécnicos do Estado. Ou o parecer negativo (ainda que não vinculativo) da Anacom  à venda da TVI ao plutocrata da Altice. Mas a que mais terá animado a generalidade dos portugueses é o compromisso do desagravamento fiscal em todos os escalões do IRS em 2018. Por muito que custe a Passos Coelho e a Assunção Cristas - e sobretudo aos titereiros, que os têm como momentâneas marionetas - a melhoria dos rendimentos e da qualidade de vida vai-se consolidando no imaginário coletivo, que é o nosso.
Deixemos para o fim o mais risível: o ai-jesus das direitas nacionais na Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, a considerar a Europa a situar-se entre a Espanha e a Bulgária e Paulo Portas a vir-se dar ares de grande pensador a uma conferência onde se multiplicou nas mais dupondianas banalidades.
Pessoalmente um dos maiores prazeres resultou do regresso de António Sampaio da Nóvoa ao nosso convívio através de uma crónica no «Jornal de Letras» em que cita Georges Steiner para reconhecer que “não é na universidade, mas na escola, que se travam as lutas decisivas contra a barbárie e o vazio. As balas perdidas não vêm apenas das armas, mas da ignorância, da insensatez e da irresponsabilidade”.
Faz-nos falta contar com a sagacidade do professor que, lamentavelmente, não cumpriu o desígnio de ser o grande Presidente destes dias que vivemos. Mas, hélas!, se dantes os enganos provinham de papas e bolos, agora vão sendo feitos de selfies e de hipócritas afetos. 

A caravana continua a passar

Nos últimos dias - desde que a Standard & Poor’s retirou da classificação do lixo da dívida pública nacional - tem sido um ver se te avias: Passos Coelho e Assunção Cristas, acolitados dos opinadores do costume, andam a querer integrar-se à pressa na festa, postando-se como co-organizadores da mesma, e até o inevitável Marcelo Rebelo de Sousa lhes valoriza a intenção.
Para que não fiquem dúvidas vale a pena repetir as vezes, que forem necessárias, qual é a verdade dos factos: Passos Coelho tomou posse como primeiro-ministro do XIX Governo Constitucional em 21 de junho de 2011 e a classificação de lixo adveio seis meses depois, em 13 de janeiro de 2012.
Quando usa o tom patético para “vender” a realidade alternativa em como, com ele, as agências de rating teriam mostrado maior complacência mais cedo, o que pretende esconder é a verdade que fica para a História: ele foi o político, que mereceu de tais agências tal confiança no que andava a fazer, que elas não tiveram qualquer dúvida em apontar-lhe o sítio certo para se acomodar quando o expulsarem de líder do seu partido.
Não tem, entretanto, espantado, que os juros da dívida vão conhecendo substantivos cortes e a governação de António Costa mereça elogios dos mais prestigiados órgãos de comunicação anglo-saxónicos, assumidos porta-vozes do capitalismo. Sobre os quais não temos de tecer quaisquer ilusões: se há característica que os seus defensores possuem de sobra é o desaforo de se colarem a estórias de sucesso na gestão de folhas de excel e tão só sintam nada poderem fazer a curto prazo contra elas, mesmo que ponham em causa os seus mais idolatrados axiomas. De reserva vão contendo os agravos de boca de se verem desmentidos na realidade prática do seu entaipado quotidiano.
Nesta altura Costa e Centeno só têm de ser pragmáticos pondo a render o melhor possível o capital de elogios inerentes aos resultados da sua ação.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Sejamos maledicentes com justa causa!

Eu sei que, nos tempos em que era um jovem crítico dos «Cahiers du Cinema», o muito por mim admirado, François Truffaut costumava escusar-se a fazer críticas negativas aos filmes por si vistos, porque só valia perder tempo com quantos realmente gostava. Daí que, por natureza, me escuse a grandes exercícios de maldizer, quando não estão em causa apenas razões políticas para o fazer.
Apetece-me, porém, recorrer à maledicência mais pessoal do que política, porque os quatro visados das estórias, que se seguem, além de a justificarem pela segunda motivação, também revelam feitios condizentes com as torpes ideias de que se fazem arautos.
A primeira vem contada em letras pequeninas no «Expresso» de sábado: na semana anterior, aquando da entrega dos Prémios Champalimaud, Marcelo Rebelo de Sousa decidiu estar presente para condecorar Leonor Beleza. Nada mais natural, que um dos mais mediáticos curadores da Fundação e conhecido amigo da homenageada - Cavaco Silva - estivesse presente. Só que ninguém ali o viu. Razão para uns quantos se terem questionado dos motivos de força maior, que a tal teriam conduzido. Mas a resposta veio dos mais argutos: depois de ter dado uma canelada ao sucessor nas jornadas de Castelo de Vide, ele temeria ver-se desfeiteado em público quando chegasse a hora do discurso principal da noite. Cobarde como sempre foi, Cavaco preferiu esconder-se na toca e poupar-se ao enxovalho!
A segunda tem a ver com Teresa Leal Coelho, mas também se ajusta bem a Assunção Cristas: nada tendo a ver com os bairros mais pobres da capital, onde se sentem completamente fora do ambiente de conforto, lá se aventuram, porque um candidato não se pode eximir à provação de os percorrer.
Se Cavaco pecava por cobardia, as senhoras candidatas das direitas revelam indesculpável atrevimento, porque nunca terão manifestado a mínima preocupação com os «privilegiados» de tão súbita devoção, sempre tendo atuado no governo ou na Assembleia da República para lhes tornar mais difícil a já amarga sobrevivência.
Resultado: depararam com quem não é parvo e sabe bem ao que vêm. Daí saírem à pressa de tais bairros rapidamente, seja porque ninguém lhes ligou, seja porque se viram insultadas e ameaçadas.  Até ao fim da campanha não será crível que se arrisquem por tão adversas paisagens urbanas.
A terceira figura pública objeto do nosso escárnio é o por certo mau dançarino Marques Mendes. Recebida a encomenda de tirar o tapete a Passos Coelho tão cedo quanto possível, sob pena de se criar a hipótese de ter as direitas e Marcelo a suportarem derrotas humilhantes impostas pelas esquerdas, já vai avançando com previsões de menos de 20% nas autárquicas para o seu partido. Contará que, tratando-se de atos eleitorais habitualmente marcados por taxas de abstenção muito elevadas, os habituais votantes do PSD se afundem no seu derrotismo e fiquem em casa.
Quão bom seria para Marcelo e os patrões, que emergisse um novo líder relativamente liberto da tralha acumulada no partido pela corte de Passos Coelho e desse a ilusão aos eleitores de 2019, que nada teria a ver com tudo quanto se passara entre 2011 e 2015.
Marques Mendes funciona, pois, com o seu habitual estilo do intriguista: tomando-se por um Maquiavel da Trofa, mais não é do que um tosco Zandinga quase sempre falho no que pré-anuncia. 

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O conformismo dos derrotados

Os articulistas do «Expresso» - pelo menos os do primeiro caderno, porque os do segundo quase todos são órfãos confessos da troika e ainda tardam em fazer-lhe o luto! - já se conformaram com a forte probabilidade de suportarem um Governo Socialista muito para lá de 2019. Acabada a época dos pirómanos e tendo poucas esperanças em verem a contestação laboral estender-se para além de 2 de outubro, só esperam por um D. Sebastião na liderança do PSD depois das próximas legislativas. Senão veja-se o que escreveu Pedro Santos Guerreiro na sua crónica do passado sábado: “António Costa está a beneficiar de um ciclo económico e a gerir um ciclo orçamental que são favoráveis a uma reeleição em 2019. É por isso que o líder do PSD eleito em 2018 poderá ser transitório e então os adversários de Passos podem preferir ir a jogo em 2018 para perder, posicionando-se para ganhar depois das legislativas.”
A entrevista com Miguel Relvas vai no mesmo sentido e vale a pena ser lida para constatar como ele já se anda a posicionar como eminência parda de quem possa vir a seguir. No entanto, se há momento alto dessa peça jornalística é uma das melhores anedotas da semana: o novo «doutor» constata que as direitas têm má imprensa, porque o Bloco de Esquerda estaria a dominar as redações dos órgãos de comunicação social pelo que pede encarecidamente a quem possa investir num novo grupo capaz de dar voz ao que designa como centro-direita. Seria o momento risível mais bem conseguido da semana se Passos e Cristas não viessem pôr-se em bicos dos pés a reclamarem a sua quota parte de «almeidas» na decisão da Standard & Poor’s.
Noutra vertente das direitas temos o inevitável Miguel de Sousa Tavares, que só muito raramente consegue acertar nas suas crónicas. Desta feita ele volta a bater nos seus inimigos de estimação - os funcionários públicos e os reformados - como se o governo apenas para eles estivesse a melhorar as condições de qualidade de vida. Como qualquer comentador, que utiliza o mesmo preconceito - muito na linha dos defensores do Estado reduzido ao mínimo - ele esquece voluntaria ou involuntariamente a medida de fundo, aprovada pela maioria parlamentar e com incidência em todos os trabalhadores portugueses, sobretudo os do setor privado da economia, que é aquele onde o recurso aos salários mínimos é maior: o aumento progressivo desse valor implicará um aliviar do cinto para muitos milhares de portugueses, que procuram sobreviver com tão parcos rendimentos.
A crónica do Miguel Sousa Tavares contém, porém, uma verdade incontestável a respeito da luta pelo aumento de 100% nos vencimentos dos  enfermeiros: “Conhecem alguma empresa privada (…) onde tal seja reivindicado e onde tal reivindicação mereça as honras de abrir todos os telejornais e de ser obrigatoriamente comentada pelo ministro da pasta, o PM e o PR?”

domingo, 17 de setembro de 2017

Um conluio que põe em causa a Democracia

Na edição semanal do «Expresso» vale a pena reter o artigo de Pedro Adão e Silva, que merece ser lido com a devida atenção por explicitar algo que vai sendo uma evidência na nossa quotidianidade nacional: existe um conluio permanente entre o mau jornalismo e o Ministério Publico liderado por Joana Marques Vidal, cujo tortuoso mandato só se concluirá em finais do próximo ano.
Muito embora ela esteja condenada a cair rapidamente no esquecimento graças à sua evidente mediocridade intelectual, a procuradora geral merecerá mais do que isso: nas nossas memórias futuras dever-lhe-á ser garantido um lugar privilegiado de evocação da sua ação partidária permanente, arquivando ou nem sequer abrindo as justificadas suspeições sobre o enriquecimento de políticos de direita e mostrando-se lesta a permitir a devassa de todos quantos se associam ao Partido Socialista.
Nesse sentido, se a Democracia anda a sofrer tratos de polé por parte de quem se acoita no edifício da Rua da Escola Politécnica ou de quem dele depende, os objetivos a longo prazo parecem ir sendo cumpridos. Quer porque os donos dos jornais e das televisões mostram nele um empenho, tanto mais evidente quanto adivinham as próximas limitações de se verem condenados à falência e, por isso mesmo, à perda do seu principal instrumento na manipulação da opinião pública, quer por manifesto egoísmo dos interesses corporativos que, sentindo manifestamente melhor a situação económica do país, exigem para si os ganhos que devem ser distribuídos de forma mais justa por todos quantos se viram empobrecidos pelos governo da troika.
No texto de Pedro Adão e Silva, que aqui se transcreve, só discordo do último parágrafo: Sócrates terá sido vítima desse conluio em vez de lhe estar na origem como uma leitura possível dessas palavras pode concluir. Mas ele tem plenamente razão quando pressupõe um sério risco para a Democracia a forte possibilidade de tal conluio levar à abstenção na participação política de quem, sendo íntegro e competente, não está para ver a sua vida privada sujeita à bisbilhotice doentia de quer só se compraz com a chafurdice difamatória.
O caso da compra da casa de Fernando Medina é disso exemplo elucidativo: um não caso foi amplificado de forma a pôr em causa quem tem demonstrado inequívoca competência para gerir uma cidade em acelerada mutação. Mas quem o pretende achincalhar busca objetivos mais ambiciosos: tal como aconteceu com Paulo Pedroso os suspeitos do costume não descansarão enquanto não eliminaram do caminho quem se perfila para devires políticos mais arrojados, aqueles que podem contribuir para que os portugueses percam a tendência para se diminuírem, emancipando-se para futuros mais ousados.
Para quem não teve acessível o texto de Pedro Adão e Silva aqui o transcrevemos:
Há uma lei de ferro na política portuguesa: quando um candidato lidera folgado uma disputa e o espaço para os adversários discutirem políticas é diminuto, surgirá um tema, mesmo que absurdo, para o enlamear. Seria fastidioso enumerar exemplos dos vários quadrantes políticos e não necessariamente com origem partidária. Desta feita calhou a Fernando Medina. Não surpreende: é um político em armação, capaz de alargar além do seu espaço partidário de origem e que se distingue por conjugar qualidades executivas com uma imagem de seriedade.
Quando se lê as acusações que lhe são imputadas a propósito da compra de uma casa, não se chega a perceber exatamente o que está em causa. Por vezes é sugerido que vendeu por um preço muito alto, outras que comprou por um valor muito baixo e outras ainda que é estranho que tenha recursos para comprar uma casa por 600 mil euros. Num daqueles delírios próprios de quem vive numa bolha de ressentimento e nem sequer é capaz de perceber dinâmicas sociais básicas, há quem se espante por entre os seus vizinhos se contarem uns quantos ex-políticos e só quem nunca comprou uma casa através de uma imobiliária pode ficar surpreendido com o desconhecimento da identidade do vendedor. Quanto a tudo isto, as respostas dadas por Medina são esclarecedoras e se pecam é por irem longe de mais na revelação de pormenores familiares que, numa sociedade decente, devem permanecer na esfera íntima. Aparentemente, o escrutínio democrático obriga a doses significativas de voyeurismo.
Talvez passe por aí o principal efeito deste tipo de casos. Mais dia menos dia, ninguém no seu perfeito juízo e com vidas probas estará disponível para desempenhar cargos políticos. Não falta muito para que a política que entregue a uma mão-cheia de pessoas que nunca teriam vida pública fora dos partidos ou que desempenham cargos políticos apenas para se servirem.

Mas vale a pena perceber por que razão uma notícia que, à partida, era uma não-história se tornou num caso.
Em qualquer democracia liberal é comum que na comunicação social se escrevam as maiores barbaridades. Faz parte dos custos de uma sociedade aberta e, com as redes sociais, a tendência até se intensificou. A questão não é essa. O que importa perceber é a razão para a notícia ter ganho tração.
A resposta está na combinação entre a ação de um Ministério Público que, incapaz de definir prioridades, abre inquéritos por tudo e por nada, num dispêndio de recursos incompreensível, e, fundamental num campo socialista, um caso Sócrates que torna outras acusações verosimeis. Aliás, talvez esse seja o principal legado do ex-primeiro-ministro: inviabilizou qualquer discussão sobre a forma como péssimo jornalismo e uma ação, no mínimo, sem critério do Ministério Público se coligam com efeitos devastadores para a democracia portuguesa. Talvez o caso Medina não seja, afinal, assim tão estranho. 

sábado, 16 de setembro de 2017

O prazer do regresso à militância ativa

Nas ações de campanha para as autárquicas, que nos têm levado a acompanhar a Inês de Medeiros (candidata PS à Câmara de Almada) e, sobretudo, a Sandra Chaíça (idem para a União das Freguesias da Caparica e da Trafaria) confirmo a importância do trabalho político junto das populações, de que normalmente se alheiam os que, nas televisões e nos jornais, «falam de cátedra» sobre assuntos de que só conhecem a rama sem irem à profundidade da vida real das pessoas sobre quem se atrevem a falar.
Contactando com pessoas de bairros degradados, ou onde tentam sobreviver os mais pobres, somos confrontados com a necessidade de recordar uma palavra de ordem utilizada amiúde por António Guterres, quando era primeiro-ministro: as pessoas não são números nem podem ser tratadas apenas pelos modelos económicos e financeiros inscritos em folhas de excel. Têm aspirações a serem assertivamente escutadas, preocupações de urgente atendimento e carências nas competências profissionais e sociais só superáveis com um persistente e determinante trabalho educativo, quer dos mais jovens, quer dos adultos a requalificar.
É esse o motivo porque encontramos sempre um enorme prazer em participar nestas ações políticas, que só lamentamos não merecerem dos partidos das esquerdas uma tão persistente frequência, quanto deveriam ter. Sobretudo para não se ouvir a justa crítica de alguns, que apontam a coincidência de só serem contactados e escutados, quando as eleições estão á porta.
Este prazer está a reiterar-se tanto mais quanto é notória a sensação daquelas dezenas de militantes, que temos acompanhado em tais ações, mostrarem um interesse genuíno no trabalho para o bem coletivo, comprometendo-se para nele se empenharem com reforçado alcance acaso mereçam o voto de quem define a composição dos órgãos autárquicos em liça. Aqui não há caciques que arregimentem militantes como se deles fossem subordinados, nem quem se empenha para vir a usufruir de benefícios pessoais. Militantes do PS há décadas, sentimos que a presente ação política em Almada obedece aos mais elevados valores da Cidadania participativa e esse é estimulo bastante para nela ativamente participarmos.

Não deveriam ter a importância que têm, mas ...

O PCP tem razão quando afirma não se justificar a importância conferida às agências de notação financeira cujo comportamento, e sobretudo interesses de quem as controla - não esqueçamos tratarem-se de entidades privadas, que nada devem a qualquer especulador das praças financeiras! - não corresponde a qualquer ímpeto regulador dos mercados, mas apenas a servirem de alibi a quem os pretende parametrizá-los de acordo com a intenção de adiar tanto quanto possível o crepúsculo definitivo do sistema económico vigente.
O capitalismo tem superado sucessivas crises com alguma agilidade, mas não consegue resolver o seu maior problema: só subsistindo se ampliar continuamente a dimensão dos mercados, eles têm na globalização os seus limites definitivos. Pode eventualmente desenvolver África de forma a torná-la num motor complementar capaz de replicar o que a Ásia representou desde os anos 70 da década transata, mas mesmo que esse processo se acelerasse o bastante para gerar um salto qualitativo no número mundial de consumidores a gula pelos seus recursos naturais significou a sujeição da população a níveis de competências muito limitadas. Se os males do colonialismo já estão bem denunciados, até por atirarem as culpas para Impérios já desaparecidos, mesmo que substituídos por Estados com nomes similares, os do neocolonialismo são obliterados das opiniões públicas por beneficiarem quem manda atualmente na economia mundial: os grandes monopólios transnacionais.
No entanto a notícia da nova notação da Standard & Poor’s, retirando Portugal da classificação de «lixo», tem a relevância de aliviar o grande aperto do governo de António Costa em conseguir sustentabilidade para os excelentes resultados conseguidos nestes quase dois anos de correção de todas as malfeitorias praticadas pelo executivo anterior. Com os juros a baixarem, torna-se possível um acesso menos dispendioso a recursos financeiros de primordial importância para virar de vez a página dos que pretendiam um país no diminutivo.
No esforço  político justifica-se não abrandar no combate a tudo o que a Moody’s, a Fitch ou a Standard & Poor’s representam, conjuntamente com quem comanda a financeirização das economias mundiais. Mas, por entre os pingos da chuva desse temporal, que afetará progressivamente este sistema de exploração de 99% da população mundial por 1% de plutocratas, caberá às esquerdas a tarefa de ir criando modelos alternativos de governação. E a atual maioria parlamentar constitui experiência inédita, que importa consolidar. Por isso mesmo a notícia de ontem à noite foi ótima para quem com ela se identifica e péssima para quem, nas direitas, continua a apostar em receitas sem amanhã...

 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O despertar dos devaneios adolescentes quase meio século depois

Em maio de 1970 recebi da NASA um volumoso envelope com documentação entusiasmante sobre a recente alunagem da Apolo 11. Para o miúdo de catorze anos que, meses atrás, havia escrito para a agência espacial norte-americana, aquela resposta às perguntas por certo ingénuas que lhes formulara, foi motivo de gáudio para as semanas de férias de verão então no seu início. Se já era leitor voraz dos pequenos livros da Coleção Argonauta, ainda mais fiel deles fiquei, devorando as histórias contadas por Arthur C. Clarke, Philip K. Dick, Ray Bradbury ou Ursula LeGuin e imaginando devires prováveis. Quem então me questionasse como veria o futuro a cinquenta anos de distância decerto teria por proposta a ideia de, então, se vir a viver numa realidade como o que Kubrick acabara de revelar no seu «2001, Odisseia no Espaço».
Hoje em dia, sexagenário, por certo estaria reformado a passear pelas diversas colónias terrestres do Sistema Solar, quiçá das ainda mais distantes, talvez visitando os filhos e netos, que por elas se espalhariam.
Hélas! A realidade ficou muito aquém da ficção e se quis dar seguimento à ânsia pelas viagens tive de me acomodar à vida de Oficial da Marinha Mercante, onde passei grande parte de duas dúzias dos anos pretéritos. Ainda assim o acontecimento de hoje - a entrada da sonda Cassini na atmosfera de Saturno, onde se incendiará antes de conseguir alcançar-lhe a superfície - desperta algo dessa inocência adolescente e faz-me sentir alguma pena por nunca ter conseguido ir mais além da superfície da Terra do que nos voos de avião, que frequentemente a escondem abaixo do manto de nuvens. Presumo que alguns dos descendentes, que continuarão a imortalizar-me um pouco no seu ADN, virão a conhecer esses longínquos futuros, mas não me caberá a sorte de viver essas experiências galvanizantes.
Cabe-me sim admirar o enorme esforço científico, que tornou possível a viagem de uma pequena sonda espacial que, partida de Cabo Canaveral a 15 de outubro de 1997, viajaria milhões de quilómetros para melhor nos dar a conhecer esse planeta do qual Galileu descobriu a singularidade dos seus anéis em 1610. Pelo caminho deixou o módulo Huygens, que foi despenhar-se em Titâ, um dos seus satélites, para melhor lhe conhecer a densa atmosfera de azoto e hidrocarbonetos.
Esta notável aventura espacial salda-se por inesgotáveis dados científicos, nomeadamente na forma de fotografias, que permitem conhecer os ecossistemas desse longínquo vizinho planetário e encontrar modelos de interpretação mais latos para o prodigioso número de exoplanetas, que se vão descobrindo noutros sistemas estelares. É admirável o investimento em curso para ir mais além do que está à nossa volta e projetarmo-nos num espaço tão infinito quanto os mares sugeririam aos nossos navegadores do século XV. 

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Logros conhecidos, mas ainda bem sucedidos

Tenho aqui afirmado que existe uma contínua repetição das mesmas estratégias por quem manobra os políticos das direitas como suas marionetas acéfalas, controla jornais e televisões fazendo-os porta-vozes das suas fake news ou notícias criteriosamente distorcidas para darem da realidade um retrato bem diferente do verdadeiro e tendo por objetivo primordial o travão de tudo quanto possa significar a reparação das obscenas desigualdades sociais, após as terem agravado indecorosamente durante a vigência do governo da troika.
Há por estes dias um filme que reconhecemos de outros tempos, nomeadamente quando José Sócrates começou a perder o apoio da maioria dos eleitores e se viu enleado no colete de forças em que continua aperreado. Quem olha para a luta corporativa da classe dos enfermeiros, não pode esquecer a dos professores, quando era Maria Lurdes Rodrigues a titular do ministério da Rua 5 de outubro. O que se viu então senão uma aliança tática entre os apoiantes de Crato, que tanto criticava o suposto «eduquês» e tinha como tropa fandanga os «sindicalistas» da UGT, e os da Fenprof, com Mário Nogueira então promovido a voz tonitruante da espicaçada revolta dos professores?
O governo de Sócrates terá ouvido o dobre de finados na célebre manifestação, que encheu a capital com milhares de docentes, que não tardariam a ter a devida paga: nos quatro anos de governo de Passos Coelho, que tanto ajudaram a guindar ao poder, viram rendimentos e direitos perdidos sem mostrarem a mínima coragem, que antes haviam assumido, na contestação ao governo socialista. E, no entanto, ninguém lhes contesta alguma razão nos protestos então assumidos. O problema é que se mal estavam, pior ficaram.
Podia-se pensar que a lição seria aprendida por outras classes profissionais, que revelassem a sagacidade de compreenderem quanto pior podem ficar se contribuem para contestar um governo apostado em recriar condições de maior justiça para a generalidade dos portugueses, incluindo os que só se atêm na sua miopia corporativa. Os enfermeiros estão a demonstrar que, podem ter a inteligência bastante para se licenciarem, mas falta-lhes a necessária para compreenderem o tipo de manipulação de que estão a transformar-se em meros fantoches.
Ninguém contesta que existe alguma razão na frustração com que se vêem remunerados e considerados no mundo do Serviço Nacional de Saúde. No entanto não consta existir qualquer incómodo com o que vivem no dia-a-dia nos hospitais privados onde a situação está longe de ser diferente da vivida nos equipamentos públicos.
Não há também quem se lembre de terem tugido ou mugido um pouco que fosse, quando Paulo Macedo era o ministro da Saúde e mostrava por eles um desprezo, que se traduzia na emigração intensiva de milhares e milhares de enfermeiros para outros países.
Agora avançaram para uma greve impulsionados por uma bastonária reconhecidamente do PSD e tendo o aval dos sindicatos pertencentes à UGT. Pensou-se que o PCP, através do sindicato do setor integrado na CGTP, estaria a demonstrar o tal conhecimento do saber de experiência feito com  as lutas contra o governo de Sócrates, mas foi aí que as esquerdas voltaram a ser iguais a si mesmas: Catarina Martins logo cuidou de apoiar a luta lançada pela bastonária e os sindicatos das direitas como se assim fosse possível dela assenhorear-se ou, pelo menos, tornar-se-sua coautora. E Jerónimo de Sousa sentiu-se no dever de lhe ir no encalço, porque preocupa-o mais a rivalidade com os vizinhos a seu lado na bancada do qua a tão urgente contra aqueles que do outro lado do hemiciclo andam a criar as condições para porem em causa o governo.
Mas a tal estratégia antissocialista, que faz da luta por interesses corporativos a oportunidade para passar a ideia de uma contestação popular contra o governo, repete velhas práticas como a insidiosa campanha contra Fernando Medina em que se aliam novamente as direitas com o PCP através do inevitável José António Cerejo. Uma vez mais a vontade de derrotar um socialista poderá virar-se contra a metade esquerda dos criadores da campanha: é que julgando promoverem a votação de João Ferreira estarão provavelmente a impulsionar a de Assunção Cristas. Será isso o que irá efetivamente ao encontro dos interesses representados por quem apoia o Bloco ou o PCP?

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Sem punhos de renda

Continuo sem qualquer dúvida quando, meses atrás, afirmei a preferência por Emmanuel Macron contra Marine Le Pen, porque simulacros de Democracia serão sempre preferíveis a projetos fascistas. No entanto não alimentava qualquer ilusão quanto aos interesses representados pelo novo presidente, depois de Manuel Valls não ter conseguido cumprir o objetivo a ele incumbido de alterar a legislação laboral no sentido mais favorável aos patrões.  A saída precoce de Macron do governo «socialista» sinalizava a pretensão de substituir a marionete, mas manter a peça em cena.
A luta que está a decorrer hoje em França é contra relações de trabalho cada vez mais desajustadas entre patrões e trabalhadores, limitando o mais possível os direitos destes últimos. O que se está a passar com o dono da PT é um pequeno exemplo da falta de escrúpulos assumida pelo patronato francês para maximizar a exploração. Não admira, por isso mesmo, que Cavaco Silva tenha feito de Macron o seu guru, secundado mais ou menos explicitamente pela gentalha do Forum para a Competitividade, que se assustam com a possibilidade de reversão de muitas alterações promovidas na legislação laboral portuguesa durante o período da troika.
O que as velhas receitas de Macron demonstram é o fim das ilusões para os que ainda julgam possíveis as receitas sociais-democratas tão promotoras da concertação de objetivos e equilíbrio de distribuição de rendimentos entre Capital e Trabalho. Estamos numa nova fase em que o patronato não teme pôr em causa as mais elementares regras democráticas para impor os seus ditames.
Aos trabalhadores resta serem efetivamente Socialistas e utilizarem as regras de uma luta de classes sem punhos de renda. Sob pena de saírem depenados, sem empregos ou precarizados, enquanto vão assistindo ao enriquecimento obsceno dos plutocratas, que tudo farão - até golpes de Estado habilidosos como no Brasil - para garantirem o aumento dos seus bens. 

Sim! É ser inimigo da Democracia!

Muito embora perfilhe de há muito a ideia de se conseguirem encontrar nos campos de futebol muitas das mais eficientes metáforas sobre a vida, e ter manifesta simpatia por um dos chamados «grandes» - embora evite disso falar aqui nas redes sociais - também não deixo de considerar o carácter de se tratar de um dos tais três éfes, que tanto têm embrutecido os portugueses e os impedem de se concentrar no que mais lhes deveria interessar: a transformação da realidade em algo mais próximo do sentido utópico.
Se o Fado já se libertou do estigma a ele criado no tempo do fascismo, muito graças a cantores que lhe conferiram a devida dignidade - a começar pela própria Amália e a desembocar no Ricardo Ribeiro e no Camané, sem esquecer Carlos do Carmo de permeio! - o Futebol, e esse cenário de grande alienação chamado Fátima, continuam a justificar as mais acerbas críticas.
No caso do chamado desporto-rei as personalidades truculentas, que dele se têm servido para ganharem uma notoriedade pública impossível de alcançarem noutras quaisquer atividades realmente merecedoras de relevância, são o melhor exemplo de aí campear a mediocridade mais superlativa. De presidentes de clubes a treinadores conhecidos pelas «inovações» no trato da Língua Portuguesa até descambarem nos comentadores, que enchem horas e horas de emissão em quase todos os canais nacionais, todos se conjugam para tornar mais rasteirinho o nível de utilização dos neurónios por quem se deixa embarcar por tal gente..
Há, no entanto, um salto qualitativo na tentativa de utilização do futebol como motor de adormecimento das consciências e ele está sedeado na presidência da Liga de Clubes que, uma vez mais, volta a tornar o domingo das eleições num dia de jogos de futebol, numa aposta assumida em aumentar o índice de abstenção.
Os dias de eleições deveriam ser especiais e o ato de votar o mais importante a neles cumprir. Contribuir para que a participação se maximize constitui um imperativo básico da Cidadania. Ao secundariza-los nas mentes de quem tanto se focaliza nos acontecimentos futeboleiros, a Liga demonstra a sua natureza inimiga da Democracia.