segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Porque respeitamos o luto de Vera Ellen e não o da brasileira de Pedrógão

Às vezes podemo-nos questionar se este país tem algum conserto, sobretudo se nos ativermos ao que a comunicação social vai emitindo. Distanciarmo-nos dela por umas horas acaba por ser atitude judiciosa para a sanidade dos neurónios e sobrepõe-se como prioridade mobilizá-los para outros estímulos, que não os de uma Cristas a reivindicar para o desgoverno em que participou parte substancial do mérito da saída da notação de lixo pelas agências de rating,  ou a mal educada brasileira de Pedrógão a demonstrar, para quem dúvidas tivesse, que o seu propósito nada tem a ver com a tragédia, mas com a sua evidente ambição política.
Em dias assim a alternativa pode ser «Natal Branco», o musical de Michael Curtiz de 1954, que o meu amigo Henrique Nabais programou para uma sessão dominical na Associação Gandaia da Costa da Caparica e nos permitiu rever um universo de valores solidários cada vez mais ausente dos tempos atuais.  E então se olharmos para as nossas direitas, só as movem padrões opostos explicitados no permanente esforço de colorirem a realidade com a cinzentude medíocre das respetivas deformidades morais.
No filme temos protagonistas empenhados em convocar o melhor de si e dos que conseguem motivar para salvaguardarem o futuro de quem o parece não ter. Quem é que nas direitas de hoje pode reivindicar esse intento? Marcelo Rebelo de Sousa? Deixem-me rir: por muito que os seus defensores teimem em não querer ver, ele continua a ser quem sempre foi e a idade acrescentou-lhe defeitos não lhe trazendo nenhumas qualidades complementares.
Para além da conhecidíssima canção, que ouviremos repetidamente nos próximos dias, «White Christmas» também tem a espantosa Vera Ellen, por muitos considerada como a melhor bailarina a ter alguma vez pisado os palcos da Broadway, superando em muito Ginger Rogers, Cyd Charisse e outras que tais. Ora, durante a rodagem do filme ela engravidou da única filha, que faleceria aos três meses com o síndrome da morte súbita. O que lhe aconteceu depois? Apesar da brilhante carreira, que estava a ter logo a abandonou e pouco mais se deixou ver nas telas de cinema ou nos palcos. O desgosto por tal perda tolheu-lhe a vontade para cantar e dançar como até ali.
Um luto desse tipo justifica o nosso respeito. Não o da tal brasileira, que nos vai assombrando naqueles curtos instantes em que o zapping resolve a indesejada intromissão no nosso quotidiano. Irrita ouvi-la perorar como se fosse dona da razão, algo de que muito desconfiamos. Porque a perda do filho - que estava confiado ao pai de quem ela se separara! - não merece que nos questionemos quanto á sua responsabilidade? Teria ele falecido na estrada da morte se ela o tivesse consigo? Daí que repugnem as suas palavras sobre o primeiro-ministro, que achou desmerecedor de ser convidado para partilhar com ela, e com quem ela manipula, as filhoses e as fatias douradas da festa de Natal.
Alguém duvida que ela não sabe quem anda a mobilizar fundos para a reconstrução das casas e das vidas de quem sobreviveu? Terá ouvido o bombeiro, que agora regressou a casa após longa hospitalização, a dizer quanto teria sido impossível vencer o monstro de fogo, que se abateu naquele dia sobre aquela região? E haverá quem não desconfie da intenção de atiçar confrontos institucionais entre Belém e São Bento?
Marcelo denuncia neste, e em muitos outros casos, a sua ambiguidade ética, e isto para lhe ser simpático na qualificação. Porque acaso não fosse viperino o sorriso aberto com que posa para as selfies dos estarolas, aceitaria ser figurante principal de uma farsa, que pretende empolá-lo para melhor denegrir António Costa? Também ele sabe que nem uma única casa de Pedrógão é reconstruída por sua implicação direta nas decisões, que cabem apenas ao executivo. No entanto ele é aquele que surge neste filme como o pretenso progenitor de filhos que não são seus...

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Encaremo-nos ao espelho antes que fiquemos mais feios

Hoje ainda não liguei a televisão. Daí que desconheça qualquer desenvolvimento no caso Raríssimos. Corro, pois, o risco de estar a passar ao lado de alguma evolução palpitante, sem que ela venha aqui contribuir à minha reflexão. Mas o dia de ontem foi elucidativo quanto ao que está em causa politicamente: a incessante busca do escândalo alheio pelas direitas orgânicas e não orgânicas como forma de encontrarem uma brecha no muro espesso, que as promete afastar duradouramente do poder.
Que importa se os seus telhados são de vidro tão fino, que pedradas bem calculadas lhos permitiriam estilhaçar? Convencem-se - e têm razões fundamentadas para tal crerem - que a cobertura quase hermética neles assentes por uma comunicação social e um aparelho de justiça concertados para soprarem ventos na direção contrária, perdurará o bastante para que nenhuma tempestade se venha sobre si desabar. Mas será que o abuso dos mortos de Pedrógão, a exploração nauseabunda de um mais do que suspeito caso judicial e a caterva de insinuações quotidianas bastarão para suster a força da verdade dos factos?
A tal ponto alguns setores dessas direitas começam a descrer da possibilidade de verem bem sucedida tal estratégia, que estão a apostar seriamente no recurso às fake news. Que outra explicação pode haver para a publicação da notícia sobre a quadruplicação dos subsídios à Raríssimos senão criar mais um foco de agitação antigoverno durante as horas bastantes para que os mais incautos com ela se indignassem e confirmassem as suspeitas anteriormente criadas pelos mesmos focos de manipulação mediática sobre o ministro Vieira da Silva? Paulo Baldaia, um serventuário medíocre do governo anterior continua a cumprir o papel de marioneta que os seus donos lhe impõem à frente do «Diário de Notícias».
Como poderiam os tais ingénuos alimentar sequer dúvidas sobre a probidade do ministro se teria aprovado as contas, que agora mandara auditar, como o diziam as notícias de abertura dos telejornais e os títulos de primeira página dos jornais? Seria só por ignorância ou por pura malvadez que esses «jornaleiros» afiançavam algo tão rotundamente falso como Daniel Oliveira trataria de, superlativamente, esclarecer: O terceiro sector não está sob tutela do Estado. Como 75% dos recursos da Raríssimas não são públicos, não é o Estado que anda a ver se gastam o dinheiro em gambas e vestidos. Isso cabe aos órgãos da própria associação. (…) O que a Assembleia Geral aprova são as contas, conhecendo as grandes rubricas. Não estão lá as gambas e os vestidos. Desde que as IPSS foram dispensadas de ter revisores oficiais de contas, que teriam deveres diferentes, a Assembleia Geral só poderia conhecer esses abusos se o tesoureiro os reportasse. Ora o delator de serviço, agora meio acabrunhado por lhe darem os quinze minutos de fama a que tanto aspirara, teria esperado seis anos para desmascarar a trafulhice em que fora cúmplice ativo. E acrescenta Daniel Oliveira: “Não à Assembleia Geral, como era seu dever, mas à TVI.
Claro que quem conhece o funcionamento das Assembleias Gerais de instituições como a Raríssimos sabe bem que quem a elas  pertence como dever cívico, mais na lógica de dar conforto honorífico à sua atividade - que presume irrepreensível - não vai detalhar números de relatórios ou orçamentos que provavelmente nem chega a abrir. Daí que a tentativa das direitas tenha também uma constante: abater tanto quanto possível os mais competentes ministros deste governo. Há um ano estavam com a mira postada em Centeno, agora pretendem-na manter focada em quem muito sabe sobre a governação das matérias relacionadas com o Trabalho e com a Segurança Social.
A concluir vale a pena olhar para a constatação que, deste caso, retira Rui Tavares na sua crónica no «Público»: “há dias em que olho para o nosso debate público (…) e penso que está na altura de fazer a pergunta incómoda: estará a nossa necessidade de ódio, na política como na religião como no futebol, a ficar impossível de satisfazer? Encaremo-nos ao espelho antes que fiquemos mais feios.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

A falta de escrúpulos dos que usam o escândalo como forma de arma de arremesso político

Ouvindo a representante dos trabalhadores da Raríssimos a lançar um pedido de socorro para que a instituição não fique inoperacional a curto prazo como consequência do alarme mediático suscitado pela apetência da TVI em particular, e da demais imprensa em geral por tudo quanto cheire a escândalo, cabe perguntar a Ana Leal e a quem lhe tem replicado a coscuvilhice - e já agora também aos denunciadores que preferiram manifestar a sua vontade de vingança sobre quem não partilhava com eles o esbulho das contas da instituição - se não lhes pesará na consciência a incerteza lançada a dezenas de doentes e respetivas famílias, que não sabem como continuarão a receber os imprescindíveis cuidados de que carecem.
Quer isto dizer que a gestão danosa da ex-presidente merece perdão? Claro que não: o que se vai sabendo do seu comportamento é de molde a desqualificá-la completamente para a função que desempenhava. Mas está-se a tratar matéria muito delicada como o é a saúde - ou a falta dela! - de pessoas, que ali encontram a merecida assistência. Não é pois questão que seja abordada com a leviandade de deixar entrar um elefante numa loja de porcelanas. Porque os riscos são muito sérios: decepada a direção, sem possibilidades de aceder às contas bancárias e com os mecenas a cortarem-lhes financiamento, o encerramento da instituição pode ser uma questão de dias.
Daí que quando veja um dos delatores a perorar para as televisões - e pese embora a injustiça, que possa estar a cometer a seu respeito! - a pergunta que me faço é esta: quanto quereria ele receber para manter a boca calada? E quanto a quem manda fazer essas reportagens a questão é outra: na vontade de se agarrarem a qualquer coisa para mancharem o governo, pode-se chegar ao vale tudo, independentemente dos danos que causem a pessoas vulneráveis e às famílias dos que deles cuidam?
Tanto quanto se sabe essas denúncias já tinham sido entregues a quem eram devidas: ao Ministério Público, ao governo e ao presidente da República. Era uma questão de tempo, que a sua ação fiscalizadora surtisse efeitos e a substituição da presidente da Raríssimos se fizesse sem danos. A tentação de transformar um caso de justiça num espalhafato mediático nada coincide com o que é o interesse público. A forma como Ana Leal e seus capangas se comportaram é elucidativa quanto ao estado calamitoso a que chegou a comunicação social que nos vai querendo manipular.
Esta opinião sobre o que está a acontecer numa instituição da chamada «economia social» não exclui a defesa de um princípio defendido pelos partidos à esquerda do meu: rastreado o tipo de necessidades oferecidas pela generalidade das IPSS’s deveria ser o Estado a satisfazê-las e a geri-las. Coartar-se-ia assim muito caciquismo com impacto significativo na política local - com todos os interesses a ela associados! - e muito aproveitamento da Igreja Católica em algo que não lhe deveria competir. Os cuidados dedicados às crianças, a doentes, aos idosos, aos sem abrigo, aos toxicodependentes e a outros segmentos carenciados da população é um imperativo de todos, que só ao Estado cabe ocupar-se.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A permanente campanha para abafar os sucessos a governação

Sempre que o governo consegue um sucesso rotundo na sua ação - e a eleição de Mário Centeno para o Eurogrupo foi-o! - há-de aparecer alguma notícia capaz de o fazer passar para segundo plano, atirando para a ululante turba aquilo que a sua componente mais primária tanto aprecia: bisbilhotice, aparentes conluios de corruptos com ministros, secretários de estado ou deputados - sempre do Partido Socialista! - para corroer insidiosamente uma dinâmica, que deveria tender para o otimismo quanto ao futuro próximo e só procura empurrar para baixo a confiança e a esperança dos que as viram crescer nos últimos dois anos.
Não é que queira passar por um paladino de fáceis teorias da conspiração, mas é crível que as anasleais tenham um sortido de estórias no congelador para as ir debitando cirúrgica e seletivamente sempre que a oportunidade de depreciar um governo em alta se lhes afigura justificada.
É por isso que, tendo em conta, as más experiências colhidas no passado com vários governos, o Partido Socialista tenha de ultrapassar para si mesmo, e para os seus quadros mais importantes, aquilo que César exigia à esposa. E tem de se deixar de paninhos quentes: em vez de estar sempre à defesa com este tipo de ataques das direitas tem de virar a mesa e apontar-lhe o muito que elas têm no cartório, ou seja não deixar cair em cesto roto tudo quanto se lhe pode apontar. Por exemplo as recentes novidades do caso Tecnoforma não justificariam uma Comissão Parlamentar para que Passos Coelho e Miguel Relvas se explicassem?  Não seria lícito questionar ativamente o porquê do governo anterior ter arruinado o sistema bancário português, mormente a Caixa Geral de Depósitos, cuja salvaguarda foi conseguida in extremis? Não se justificaria trazer de novo à baila a estranha «privatização» da TAP, quando esse mesmo governo já só estava em gestão e que quase deitaria a perder a possibilidade de Portugal contar com uma companhia aérea de bandeira?
As possibilidades de contra-atacar as direitas poderiam prolongar-se por muitas mais questões, que elas nunca esclareceram. E talvez fosse tempo de olhar para a comunicação social com rigor e exigência, a começar pela parcialidade com que a (des)informação da televisão pública trata a nossa quotidianidade, aferindo se, na mesma medida, os demais operadores cumprem os requisitos legais para manterem as respetivas licenças…
Quanto ao caso «Raríssimas» ele durará tanto quanto outros similares: durante uns dias será explorado até à náusea e depois segue-se para outra notícia, para outro «escândalo».  Que os próximos venham a afetar quem, nestes últimos dois anos, tem adotado poses angelicais, sonsice com que têm procurado esconder a sua intrínseca natureza pecaminosa… essa sim ainda insuficientemente escrutinada!

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Alcançado o primeiro milhão!

De acordo com a página de informação da plataforma Blogger será nas próximas horas, que o «Ventos Semeados» alcançará o primeiro milhão de visualizações. Tendo em conta que, em média, vêm nele ocorrendo duas mil visitas diárias, o facto de, nesta altura do dia estarmos nas 999 521 visualizações, e serem previsíveis cerca de mais mil até ao final do dia, esse objetivo está iminente.
O gráfico abaixo também demonstra que existe um número crescente de leitores a visitarem mensalmente a página, sendo vários os picos acima dos trinta mil, com um máximo a aproximar-se dos sessenta mil. Se existe exemplo da progressão exponencial nas matemáticas, esse indicador relativo aos nossos leitores constitui opção eloquente.
Estes objetivos vêm não só estimular-nos para que sejamos futuramente mais ambiciosos nesta ação política quotidiana mas também nos confere maior responsabilidade no sentido de credibilizar a informação aqui prestada, ainda que assumidamente orientada para uma mundividência de esquerda. Porque decerto ninguém terá dúvidas de que, embora o seu subscritor seja militante de um dos partidos da maioria parlamentar, é na sua convergência que se reconhece e identifica.
Temos de estar conscientes de como nesta fase concreta da luta de classes as redes sociais têm e terão determinante importância como ferramenta de agitação e propaganda. Daí que as direitas estejam a usá-las e a abusá-las - mormente através das fake news cujo efeito se comprovou na eleição de Donald Trump! -, para cumprirem a sua agenda. Daí a urgência em que páginas como esta se multipliquem e prevaleçam como fiáveis. Além dos atuais blogues, que devem persistir no esforço contínuo de denunciarem as malfeitorias que os candidatos a donos disto tudo vão fazendo, muitos outros devem surgir para criar uma rede tenaz por onde também se exaltem as propostas políticas capazes de darem um outro sentido de decência ao mundo em que vivemos.
Em condições normais o segundo milhão só deverá ser alcançado em 2020. Se o alcançarmos antes isso significará que existe uma massa crítica importante de leitores para quem o ideário de esquerda faz todo o sentido e, identificando-se com ele, estão dispostos a contribuir para que ele se cumpra.

Animosas tendências quando à direita se temem apocalipses

1. Se antes da privatização os CTT já estavam a funcionar com muitos problemas, suscitados pela estratégia da então Administração em reduzir-lhe os custos ao máximo de forma a torná-los atrativos aos potenciais interessados, a situação tem-se agudizado desde que perdeu o estatuto de empresa pública. Passam-se dias sem que haja distribuição de correio, que depois chega acumulado - se é que chega? - e as encomendas para o estrangeiro justificam sempre o credo na boca, porque quantas prendas para os familiares entretanto se perderam?
Esta semana soube-se que o Partido Socialista está a preparar a reversão da privatização em 2020 quando as evidências quanto ao incumprimento do contrato estabelecido for demonstrado. A tal acontecer muito teremos de nos congratular, mesmo que não baste para nos sentirmos satisfeitos: houve tantas e tão injustificadas transferências de importantes empresas públicas para interesses privados, que bem gostaríamos que tal «andorinha» significasse de facto o regresso da Primavera, traduzido noutras renacionalizações…
2. Boa notícia foi também a escolha de Lisboa como o melhor destino turístico a nível mundial de acordo com quem dinamiza globalmente essa atividade. É certo que beneficiamos de muitos fatores conjunturais, passíveis de se alterarem com a mesma rapidez com que surgiram, mas o desafio de quantos têm nisso influência, exige que transformem um fenómeno de moda numa realidade bastante mais sustentável.
3. De corporação inimputável, os juízes estão a sentir-se acossados face à indignação com muitos dos fundamentos, que vêm acompanhando um conjunto de vereditos denunciadores do tipo de preconceitos arcaicos assumidos por muitos dos seus pares. Há jubilados a assinar abaixo-assinados e a Associação Sindical também veio manifestar o desconforto. O que só nos pode congratular: era só o que faltava ver um dos mais influentes poderes da nossa sociedade eximir-se ao escrutínio da opinião pública como se os seus erros mais grosseiros continuassem a ser acatados como se de incontestáveis axiomas se tratassem…
4. O debate interno no PSD continua confrangedor: os candidatos à sucessão de Passos Coelho vê demonstrando que a passagem dos anos só lhes agravou os conhecidos defeitos  sem lhes ter trazido a compensação de alguma, mesmo que débil, virtude. Compreende-se, pois, a previsão apocalítica de um deles, descrente da capacidade da duração de vida de uma organização tão envelhecida quanto envilecida.
5. A mesma decadência irreversível também parece acontecer à direita tradicional francesa, que acaba de eleger para seu novo líder um político, Laurent Wauquiez, que pouco se distingue no discurso e nos valores, da Frente Nacional de Marine Le Pen. O que não deixa de ser positivo de uma outra forma: esclarecido o equívoco de ter participado num governo dito socialista, Emmanuel Macron confirma-se indubitavelmente como o rosto definitivo dessa área ideológica, marginalizando-lhe as franjas radicais para alternativas grupusculares. Cria-se assim a fronteira a partir da qual se define quem, à esquerda, se perfilará como seu principal oponente. Jean Luc Mélanchon está a ganhar um espaço de influência eleitoral, que nunca conseguira ter até aqui, mas o Partido Socialista (de que ele já fora importante dirigente!) também precisa de renascer das cinzas. Porventura para ser parte relevante de uma maioria parlamentar, que tenha na portuguesa uma boa base de inspiração.

domingo, 10 de dezembro de 2017

As práticas difamatórias da TVI

No raspar do tacho para ver se ainda dele se pode conseguir alguma coisa, que substitua a mais do que esgotada novela em torno dos incêndios ou do desaparecimento do material militar de Tancos, a TVI foi buscar um suposto envolvimento de Sonia Fertuzinhos com uma associação onde a gestão dos dinheiros é mais do que nebulosa. Muito embora a deputada socialista tenha julgado esclarecida o seu não envolvimento no caso, a «jornalista» da TVI Ana Leal - não esqueçamos que era uma das mais diletas colaboradoras de Manuela Moura Guedes! - explorou essa ligação enlameando a reputação da difamada. Na realidade a deputada terá aceite a deslocação para participar como convidada numa conferência cuja organização - como lhe cabia fazer! - terá pago todas as despesas à associação em causa que, ao contrário do afirmado na reportagem, não teve qualquer encargo com tal iniciativa. Não houve, pois, qualquer fundo de verdade na sugestão de haver políticos socialistas a passearem-se por esse mundo fora com despesas pagas a partir de um orçamento, que deveria servir para o apoio a doentes com doenças incomuns.
Para a estação cuja direção da informação continua confiada a Sérgio Figueiredo - também não esquecer que foi quem «despediu» acintosamente o atual ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto santos Silva, quando ali produzia comentário político - todos os argumentos são bons para manter acesa a guerra contra o Partido Socialista. Razão para ainda dele podermos esperar pior se a TVI acabasse entregue à Altice e servisse de arma de arremesso contra um governo cujo líder já evidenciou no Parlamento o escasso apreço, que ela lhe merece…
Não deixa de ser curioso o afã com que as várias televisões exploram pistas mais do que ténues de situações que possam envolver a maioria parlamentar e insistam em esquecer casos bem mais consistentes como o são a Tecnoforma, o caso dos vistos que envolve Miguel Macedo e Marques Mendes ou as tentativas dilatórias  de Duarte Lima para adiar o mais possível o regresso à pildra!

A palavra aos leitores

O texto intitulado «Dois aspetos de uma entrevista em que Catarina Martins tem razão» mereceram comentários de alguns dos nossos habituais leitores dos quais destaco, para já, três.
Carlos Sobral confirma o progressivo distanciamento, que se vem notando nas suas posições a respeito do governo de António Costa, que desejaria mais ambicioso em medidas efetivamente socialistas. Pessoalmente não é por andar mais devagar, que ponho em causa a bondade da ação governativa, porque tenho presentes os muitos condicionalismos, que se lhe opõem. E, como engenheiro que sou, sei bem quanto o atrito representado pela oposição das direitas (nas várias vertentes, desde a de Belém á da comunicação social) e pelas circunstâncias (os fogos, a seca)  pode obstar à ligeireza do movimento. O primeiro-ministro afigura-se-me pois como aquele que busca, em cada momento, o melhor lubrificante para fazer com que as coisas avancem.
Aqui fica o texto desencantado do Carlos Sobral:
O PS não tem vontade política de alterar a legislação laboral, como não tem vontade política de acabar com o regabofe dos privados na Saúde, como não tem vontade política de renegociar a dívida. O PS não tem vontade política de fazer políticas verdadeiramente de Esquerda. Ainda pensei que com António Costa isso fosse possível, mas já vi que o PS não renega o seu ADN de partido de direita.
O José Manuel Pereira concorda com a generalidade do que o texto aborda, mas discorda da relativização aí feita sobre as novidades inerentes ao que Catarina Martins dissera na entrevista. Embora também lhe esteja implícita a mesma vontade do Carlos Sobral relativamente à lentidão com que as coisas vão mudando, adivinhamo-lo apesar de tudo identificado com a atual maioria parlamentar:
 De acordo com a generalidade, em desacordo com o "tal aspecto" do "nada de novo". Claro que, em se verificando que nos tais elementos "ditos repetitivos" nenhuma evolução se verificou, eles devem e tem que ser repetidos. Como diz o ditado popular "água mole...". O BE hoje como o PCP sempre, podem ser denegridos com o termo da "cassete", mas sei que qualquer deles adoraria "colocá-la" definitivamente na prateleira. Seria um sintoma de que teria perdido a actualidade, a urgência, a necessidade. Mas não. Os problemas existem, estão para durar, e oxalá a fita dure o tempo necessário, até que a "água fure". Podem caricaturar o BE de "esquerda caviar" de "socialistas radicais" ou de comunistas não alinhados". Isso não lhes tira o mérito de serem (salvo raras excepções (às vezes tontas)) de se constituírem na expressão do pensamento mais puro e reformista de que o país precisa. Francisco Louçã, Catarina Martins, e as irmãs Mortágua, tem provado ser muitas vezes as vozes e os gritos das consciências amordaçadas. Para eles o meu respeito e admiração.
A concluir fica a posição do Leopoldino Machado, que lista um conjunto significativo de concretizações operadas pelo governo para o considerar no bom caminho. Também é essa a minha opinião:
Questões pertinentes a ter em conta...não sei bem o ADN do bloco ou do PS no atual contexto...sei é que milhares de precários da função pública e autarquias vão passar aos quadros....foi reposto salários de cerca de 20% aos trabalhadores função publica. ...vão ser descongeladas carreiras profissionais com aumentos salariais efectivos para milhares trabalhadores....foram extintos impostos ou reduzidos...aumentados salários e pensões. ..pagos milhões de dinheiro emprestado para poupança juros...sinceramente depois das calamidades de incêndios... com orçamentos sem retificativos ...reversão de privatização de empresas nos transportes já aprovadas...metro...carris...TAP. ..saneamento financeiro da CGD ...problemas graves da banca resolvidos dentro dos condicionalismos impostos pela UE. ...não sei bem se será justo não dar o benefício da dúvida ao atual governo...educação foram tomadas medidas que acabaram com as medidas de nuno crato de entregar o sector aos privados com a cessação de contratos lesivos do interesse publico...e muito mais haveria por equacionar...com todo o respeito por opiniões contudentes para com medidas aprovadas por AC e o seu governo ...eu pessoalmente penso que as coisas estão num bom caminho...questão de pessoas para mim não é importante...políticas que mexem com bem estar do povo isso para mim é o mais importante.