domingo, 15 de setembro de 2013

LIVRO: «Todo que era solido» de António Muñoz Molina

Até 2008, ano da crise, a Espanha era tida como o bom aluno da União Europeia. A transição democrática fora pacífica, sem o derrame de qualquer gota de sangue, a expansão do setor imobiliário conduzira a um excecional desenvolvimento, que suscitou inesperadas taxas de crescimento económico.
Mas, quando a bolha imobiliária rebentou, disseram-se adeuses aos amanhãs cantantes…
Hoje, cinco anos passados sobre o início da crise, não se vislumbra qualquer luz ao fundo do túnel e o desespero parece omnipresente.
É nesse contexto que o escritor e ensaísta Antonio Muñoz Molina avança com um inventário, que não mostra qualquer complacência com os seus compatriotas. “Todo que era solido”, a sua obra mais recente, pretende abordar as causas da crise, explicando-a em função do apego dos espanhóis às suas tradições, esclerosados pelas hierarquias sociais e incapazes de lerem devidamente o seu passado. Porque, a seu ver, a transição democrática ainda está por concluir: as estruturas do franquismo continuam a agir na sombra. Uma boa formação ou competências não bastam para chegar a um bom emprego: mantem-se a preponderância da família e das “cunhas”.
A corrupção está generalizada da administração à classe política passando pelas altas esferas da justiça. E a família real não prima pela exceção.
Antonio Muñoz Molina confessa-se farto. Recentemente recompensado com o prestigiado Prémio Cervantes, apela a uma mudança radical nas mentalidades. Em vez de continuarem a ocultar as verdades, que incomodam e a atirar todas as culpas para cima da Europa e de Angela Merckel, os espanhóis deveriam assumir as suas responsabilidades, avançando com uma criteriosa autocrítica e então desenvolverem um espírito cívico verdadeiramente democrático.


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