domingo, 5 de janeiro de 2014

PERSPETIVA: Cobras e pintainhos

Fazer o “rewind” das muitas imagens acumuladas ao longo do dia, permite ter uma noção da enorme dispersão por onde passeei o olhar.
A mais tenebrosa veio de um documentário sobre a criação de cobras para fins culinários e medicinais numa região do Vietname próxima de Hanói .
Se incomodou o ato frio de matar tais animais para depois os servir à mesa, ou encerrá-los em garrafas com álcool para funcionarem como apreciados licores, muito pior foi a sequência de planos em que se mostrou como umas dezenas de pintos costumam ser  arrebanhados indiscriminadamente para os mergulharem na água a ferver e depois alimentarem os ofídios nas respetivas gaiolas. Primeiro ouvíamo-los a piar de desespero e, um segundo depois, instalava-se um tenebroso silêncio, como seria o das câmaras de gás dos campos de concentração, quando se abriam as condutas do Zyklon B.
Sabemos bem como as culturas são bem diversas e até devemos respeitar essas mesmas diferenças. Mas um ato de crueldade pura é-o em qualquer civilização. E, nesse sentido, pode-se considerar que, pesem embora os seus próprios defeitos, a civilização estabelecida nesta Europa Ocidental ainda merece ser enaltecida como uma das mais éticas do ponto de vista do comportamento para com as outras espécies animais.
Mas essa cena fez-me recordar uma experiência pessoal quando, quinze anos atrás, passei cinquenta e cinco dias em Xangai (e não em Pequim como no filme do Nick Ray) para acompanhar a reparação de um navio num dos estaleiros de Pudong.
Na altura os responsáveis do estaleiro levavam, amiúde, os principais oficiais de bordo a jantarem nos mais representativos restaurantes da grande metrópole.
Daí que tenha comido coisas, que será melhor ignorar, porque decerto tratar-se-iam de “iguarias” pouco consonantes com os padrões gustativos da nossa cultura.
Muitas vezes questionávamos o intérprete, Deng, sobre a natureza de tais alimentos, mas a resposta dele era invariavelmente a mesma:
- Não sei, mas é muito bom!
Deng escudava-se no desconhecimento da gastronomia daquela região, já que formara-se em Língua Inglesa numa cidade dois mil quilómetros para o interior do país, e onde os costumes eram completamente diferentes. Segundo as suas palavras, quase tudo era novo na sua primeira experiência profissional longe de casa.
Mas havia sempre algo mais facilmente identificável: a cobra, sob a forma de umas rodelas esbranquiçadas, servidas numa espécie de sopa ou separada em pequenos pratos.
Decidido a eximir-se a essa experiência fui tendo sucesso no intento até ao último jantar. Mas, alertados por outro dos oficiais lusos, disposto a fazer-me a partida, os anfitriões constataram essa reincidente escusa e pressionaram-me a finalmente a degustar o que consideravam um dos melhores petiscos ali servidos.
Por cortesia acedi e, confesso, que não me soube nem bem, nem mal. Psicologicamente consegui neutralizar gustativamente o sabor dessas rodelas e senti-las como se fosse aipo ou alho francês. Mas não desejei repetir a experiência, nem tão pouco dela me tornei fã. E, mal por mal, quando regressei posteriormente a portos chineses, optei sempre pelo mais reconhecível «Big Mac» por muito que me pudessem afiançar quanto á possibilidade de serem feitos com minhocas...


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