domingo, 20 de agosto de 2017

Nós agradecemos!

1. A entrevista de António Costa ao «Expresso» tem sido objeto de várias reações, sendo a mais estúpida a assumida por Hugo Soares em nome do PSD, quando rejeita liminarmente o ramo de oliveira estendido pelo primeiro-ministro para depois das autárquicas e classifica de socratistas - considerando o termo como pejorativo! - as expetativas de grandes obras públicas no quadro do programa europeu que se seguirá ao atualmente em curso.
É dificilmente compreensível a cegueira ideológica, que impede os responsáveis do maior partido de oposição em compreenderem a inconsequência das suas reações. Perante os eleitores eles facilmente serão conotados com aquela figura popularmente rejeitada do sujeito que nem faz nem deixa fazer. Com reflexos óbvios nos favores eleitorais!
Isso mesmo foi entendido por dois insuspeitos comentadores - Ricardo Costa e David Diniz - que reconheceram implicitamente quanto essa proposta do primeiro-ministro só beneficia o atual governo e a maioria parlamentar em que se fundamenta. Não admira que, compreendendo quanto as direitas se vão afundando à conta da sua automarginalização do que mais interessa aos portugueses, o Bloco e o PCP logo tenham vindo manifestar-se disponíveis para convergirem com o PS na tão necessária tarefa de continuar a melhorar e desenvolver o país para além desta legislatura.
Tranquilo, Costa reconhece que se sente muito confortável com os atuais parceiros partidários. E nós agradecemos!
2. A saída de Steve Bannon do grupo de conselheiros de Donald Trump e o seu regresso ao blogue, que lhe serviu de ferramenta propagandística aos seus valores de extrema-direita, representa o reconhecimento de uma maré, que esteve a encher e conseguiu avançar seriamente até dimensão impensável, mas se vê agora em refluxo.
A manifestação de Charlottesville poderá significar o ponto de viragem em que os trogloditas dos vários movimentos neofascistas regressarão às tocas e dificilmente se voltarão a manifestar com a pujança coletiva agora demonstrada. Pelo contrário poderão deles emergir os lobos solitários para perpetrar atentados terroristas como o praticado pelo assassino, que atropelou os contramanifestantes daquela cidade da Virgínia com o seu carro. A exemplo dos homicidas da Catalunha, da Finlândia ou da Rússia, quando casos assim se repetem só indiciam a quebra significativa da influência de quem os inspirou.
Para muitos jovens islamizados na Europa, as derrotas do Daesh na Síria e no Iraque soam a um dobre de finados pelo fim das suas ilusões a respeito de um Estado em que vissem replicadas as suas ideias distópicas. Por isso mesmo, quando Bannon promete raios e coriscos com o regresso ao lugar onde foi feliz, desconhece que ele nunca deixa repetir as pretéritas satisfações. Tal como sucedeu com outros movimentos fascistas ao longo da segunda metade do século XX na Europa e nos EUA, o seu declínio é irreparável. Porque bastou virem à ribalta através do mais ridículo dos inquilinos da Casa Branca para se verem marginalizados como grotescas emanações de um passado assustador, definitivamente enterrado! 

sábado, 19 de agosto de 2017

Terroristas, marketing político e alguma pólvora seca

1. Os atentados jiadistas na Catalunha e na Finlândia ocorreram ao mesmo tempo que as forças afetas ao regime sírio vão ganhando terreno ao Daesh, aumentando significativamente a percentagem de território libertada dos seus crimes. É terrível para as vítimas destes atos desesperados, mas eles são-no de facto isso mesmo: os que acreditaram na viabilidade de um Estado Islâmico, que viesse vingar as suas frustrações numa sociedade consumista ocidental, onde foram, são e serão tratados como párias, veem cerceada a expetativa de um futuro diferente e dão-se à morte com os fracos recursos de que dispõem - e as viaturas alugadas são o que têm mais à mão! Ao suicidarem-se tentam levar consigo tantas vidas quantas as possíveis numa lógica vingativa, que sabem capaz de prolongar o horror ainda por mais algum tempo… antes de se estiolar de vez!
Estamos no fim de um ciclo, que tem feito tremer instituições de todas as latitudes e promovido medidas securitárias muito para além do que elas seriam necessárias. Quem lidera os Estados ocidentais tem aproveitado para lançar as premissas de uma inquietante estrutura de controle de todos cidadãos, bem útil a eventuais derivas totalitárias. Por isso compreendem-se as reticências do PCP em relação aos metadados, agora aprovados por Marcelo Rebelo de Sousa. Para este, tal legislação permitirá combater mais eficientemente o terrorismo. Mas, como se agora se constatou com a rápida reação aos atentados de Barcelona e de Turku, o presidente português não mostrou a mesma preocupação em manifestar-se contra os crimes terroristas de Charlotesville. Uma vez mais, e com provas sucessivamente reiteradas, Marcelo é igual a si mesmo: um peão das direitas colocado numa casa decisiva do tabuleiro para, a partir dela, participar na tentativa de fazer xeque-mate às esquerdas!
2. Conhecidas agora as despesas dos partidos durante o ano de 2016 fica-se a saber que o PSD andou a pagar todo o ano a retribuição solicitado por André Gustavo, o marketeiro brasileiro, que criara narrativas bastante eficazes para o quase sucesso eleitoral de outubro de 2015. Agora a contas com problemas judiciais no seu país, o guru de pouco préstimo servirá a Passos Coelho nos próximos tempos, mas convenhamos que com tão fraca mercadoria, não há publicitário capaz de a fazer dourar como algo de apetecível aos seus potenciais consumidores. Está em causa um gasto desnecessário de dinheiro para um partido, que promete ver cortado significativamente o financiamento do Estado quando em próximas eleições, ver reduzido drasticamente a percentagem de apoio dos eleitores.
3. O «Público» prestou-se a servir de instrumento de vingança a Paulo Azevedo contra José Sócrates por este, enquanto primeiro-ministro, não ter aceite ser seu cúmplice na frustrada OPA sobre a PT. Agora, sabendo iminente novo prazo para apresentação de provas, que nunca chegam a ser encontradas, o jornal da SONAE chafurda na imundície criada por Rosário Teixeira e Carlos Alexandre criando uma narrativa, que peca logo em dois contra-argumentos factuais incontestáveis: nem foi o governo de Sócrates quem retirou ao Estado a golden share  na PT, nem foi na sua vigência, que se verificou o negócio com a Oi. Se a PT foi o exemplo indubitável de um importante ativo nacional delapidado pelos seus acionistas e gestores com a colaboração de um governo em funções, então a suspeita sobre a sua ação danosa deverá ser endossada não só a Zeinal Bava, a Henrique Granadeiro, a Ricardo Salgado, mas também a … Passos Coelho, que tudo lhes acabou por permitir!
Bem podem Paulo Azevedo e seu papá Belmiro tomar umas pastilhas para a azia, que a sua campanha no «Público» só consistiu em inconsequente pólvora seca.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Sensibilidades fascizantes

Apetece-me ser politicamente incorreto com quase quotidiana frequência por muito que  arrisque beliscar a sensibilidade de muitos dos que me leem. Por exemplo, como ateu, posso questionar-me como é possível aos familiares das vítimas da queda de um carvalho na Madeira continuarem a acreditar em Deus se, a seu ver, Ele se terá exprimido de forma tão cruel e inexplicável? Ou porque terá feito tombar um enorme andor em Lousada, se ele estaria projetado para O homenagear - ainda que aqui ainda consiga vislumbrar alguma semelhança com a decisão punitiva de Deus sobre os arrogantes construtores da Torre de Babel.
Se quiser ser um pouco mais provocador posso sempre questionar o que leva Deus a causar sofrimento aos seus cultores, quando os deveria apaparicar com a satisfação de todos os seus pedidos de milagres? Ora sabemos bem como os coxos, os marrecos ou os mudos, que se arrastam anualmente em peregrinações a Fátima, não regressam às suas aldeias curados das suas maleitas e até se veem amiúde acusados de deverem o seu fracasso a insuficiente fé no Divino Espírito Santo.
Vem isto a propósito de um comentário de João Quadros a respeito da cabeça rapada da mulher de Passos Coelho e que suscitou uma violenta reação inquisitorial contra o cronista nas redes sociais. Pelos vistos há muita gente, que mesmo discordando das opiniões políticas do ainda líder da Oposição, não aceita que se aluda à doença grave da azarada “consorte”.
Gostaria de saber se esses torquemadas de trazer por casa terão manifestado igual repúdio, quando aquele que agora defendem recorreu ao falso suicídio de pessoas em Pedrógão Grande. Ou se reagiram à necrofagia de que o PSD e o CDS se alimentaram dias a fio a propósito das vítimas de dois meses atrás. Pessoalmente tanto se me dá como se me deu, que a senhora em causa se salve ou não dos males, que a afligem. Tenho a certeza de que haverá doentes em estado bastante mais grave, mas com menos condições de acesso a tratamentos adequados nos hospitais públicos ou privados, e por quem só os mais próximos verterão compassivas lágrimas.
Revisitando a piada de João Quadros até a considero grácil na sua fina ironia, sobretudo porque o discurso de Passos Coelho na Quarteira colou-se ao do seu repelente candidato autárquico em Loures e não desdenha da sua filiação nos movimentos neonazis.
A exemplo do que se passa com Trump a propósito dos acontecimentos de Charlotesville há alguma equidistância entre a evidente filiação fascista de Passos Coelho e a piada sibilina de João Quadros? Nenhuma, porque enquanto este último assume a crítica contundente às palavras execráveis do primeiro, os que se põem do lado do visado tornam-se cúmplices ativos do seu novo posicionamento ideológico.
Ao contrário dos que consideraram a piada como sinónimo de mau gosto, eu diria que ela responde na mesma moeda em que Passos Coelho tem primado nos últimos tempos. Se há alguém a atirar para a fogueira da nova Inquisição não é quem denuncia aquele que se deleitava com a possibilidade da vinda do Diabo, mas quem deste se revelou inegável cultor. 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A impotente fúria dos Carvalhos

Em favor de Manuel Carvalho deve-se abonar o estimável trabalho de historiador sobre a I Grande Guerra em Moçambique, um teatro de acontecimentos que o país quis esquecer, mas onde se verificaram mais baixas do que na Flandres nesse mesmo período. No entanto, como jornalista do «Público», tem revelado nos últimos dois anos um ódio de estimação a António Costa em particular e ao governo em geral, a partir do momento em que este iniciou funções no final de 2015.
Embora procure fundamentar os pressupostos com que passa o tempo a pretender pôr em causa os três partidos da maioria parlamentar, pressente-se-lhe uma raivinha descontrolada bem evidente no texto hoje inserido no «Público» e em que o próprio título - «Sua Santidade, o Governo» - constitui todo um programa do seu ideário enquanto militante anti esquerda, despojado de muitos dos pruridos deontológicos imprescindíveis a uma opinião jornalística digna desse nome.
Carvalho lamenta a ineficácia das direitas em contrariarem o governo e insurge-se contra a crescente contestação das redes sociais contra o tipo de jornalismo por ele representado. É precisamente aqui, que ele melhor demonstra o medo perante o futuro próximo: se nunca o vimos insurgir-se contra o controle da (des)informação operada por televisões, rádios e jornais durante os quatro anos de governo da troika, nem titubeou contra a preservação dessa manipulação indecorosa nestes dois anos de governação, junta-se ativamente a Filipe Santos Costa, a Pedro Santos Guerreiro ou a Ricardo Costa no coro dos que carpem a perda de credibilidade da imprensa convencional e são alvo de chacota e de denúncia nas redes sociais.
Pior ainda, Carvalho sente-se inseguro perante o que a realidade vai desvendado através das sondagens: por muito que afinem as imaginações e repitam argumentos aleivosos, os indicadores económicos vão-se sucedendo numa tendência, que os tende a transformar em párias da comunicação social, porque progressivamente denunciados e abandonados pelos respetivos leitores e espectadores.
Para se iludir acaba o texto de opinião a crismar de populistas e de ditatoriais os que lhe contestam as desajustadas opiniões neste contexto. E faz profissão de fé na democracia e nos mecanismos com que esta se defenderá dos que ele desconsidera. Esquece-se Carvalho que o desprezo dos leitores e dos espectadores às grotescas manipulações do tipo de jornalismo, que representa, é a melhor prova em como a Liberdade significa isso mesmo: o direito a escolher entre uma informação baseada nos factos e nos números, e essoutra, cada vez mais condenada, de prestimosa submissão aos dogmas austeritários com que tão confortavelmente conviveu. E que tão tragicamente foi vivida pelos portugueses durante os malfadados quatro anos de Passos e Portas à frente do governo.
Quem põe em causa este tipo de jornalismo exige um outro em que os carvalhos manifestamente não têm cabimento.

Tinhosas abjeções

Passos Coelho e Donald Trump continuam em foco pela deriva neofascista dos seus discursos dos últimos dias. Poderá haver quem se incomode com o recurso a tão rebarbativa expressão, mas para quê poupar na desqualificação quando um manifesta incómodo com imigrantes aqui recebidos segundo uma obrigatória diretiva europeia ou o outro equipara os nazis de Charlotesville aos contramanifestantes, que contra eles protestaram?
Que os tempos vão difíceis para o líder laranja dizem-no os jornais: uma das reações mais vibrantes ao seu discurso na Quarteira foi quando se ouviram assobios dos prédios mais próximos motivados pelo jogo de futebol aí a ser visto e as televisões cedo desistiram da transmissão direta do que ele dizia para iniciarem um daqueles programas de paineleiros desportivos, que esvaziam as mentes, mas garantem tão significativas audiências. Tocando a rebate pelo sinais evidentes de uma abrupta e iminente derrota, a direção do PSD decidiu que Passos Coelho passará todo o mês de setembro em digressão pelo país, não tanto para minorar a derrota de outubro, mas a preparar o terreno para mais dificilmente ser desalojado nas primárias para o próximo Congresso.
Por seu lado Trump não consegue deixar de ser quem é: mesmo depois de se ter visto obrigado a ler uma declaração a só condenar os nazis da manifestação na cidade da Virginia, logo retomou a tese de serem condenáveis eles e os que pacificamente os verberavam.
Ambos desconhecem uma evidência: poderão ter tido o direito a mais dos que os proverbiais quinze minutos de fama, mas esta tende a ganhar a dimensão da mais tinhosa das abjeções.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Ver ou não ver (a verdade), eis a questão

No seu mais recente romance - «O Deslumbre de Cecilia Fluss» - João Tordo põe um dos personagens, Matias, a contar uma história a companheiros de viagem com a intenção de lhes ministrar um ensinamento importante.
Existiu um homem, que teve de se ausentar da aldeia onde vivia para tratar dos seu negócios numa outra. Quando regressou os bandidos tinham por ali passado e queimado grande parte das casas juntamente com os seus habitantes.
Mortificado o homem procurou o cadáver do filho e identificou-o no corpo irreconhecível de uma das vítimas e cuidou de lhe prestar o devido ritual fúnebre. Concluído este, levou as cinzas para casa e colocou-as num altar onde poderia prestar-lhe diariamente o seu tributo.
Acontece, porém, que o filho fora levado pelos bandidos para lhes servir de escravo e nunca perdera a intenção de regressar a casa. Ao fim de algum tempo conseguiu fugir e, dias depois, estava a bater à porta do progenitor para se acolher nos seus braços.
Acontece que o homem convencera-se de ter nas cinzas do retábulo o que restara do filho, pelo que o rapazola do outro lado da porta não poderia ser senão um impostor.
Cansado de o tentar convencer do contrário, o rapaz zarpou da aldeia do pai para ali nunca mais voltar.
A moral da história é simples: quando alguém se convence de algo, rejeita ver a verdade nem que ela lhe venha bater à porta.
Vem isto a propósito de mais uma crítica de Jaime Santos a um post aqui publicado: "A luta de classes que se mantém na ordem do dia". Eis o texto daquele nosso atento leitor:
“Eu não me refiro a considerações teóricas que na maioria desconheço. Refiro-me, isso sim, ao programa político do PCP, por exemplo, ou aos corbynistas, que parecem ignorar que existe uma coisa chamada progresso tecnológico que é, mais do que a globalização, o grande responsável pela destruição de muito do bom emprego que existia. É certo que tudo isto depende também da força do movimento sindical, por exemplo, mas não podemos (nem queremos) regressar aos modelos produtivos dos anos 70, desde logo olhe-se para a destruição ambiental que produziam (e ainda produzem no mundo em desenvolvimento). Trata-se de um mundo morto ao qual não é possível voltar. A questão é qual é o modelo produtivo que combinará decrescimento, prosperidade e dignidade social para todas as faixas da população. Sobre isso, não ouvi ainda nada, para além das considerações requentadas sobre o 'pleno emprego' (Piketty é bem mais eloquente ao apontar o dedo à distribuição de rendimentos, porque políticas re-distributivas são algo que um Governo pode sempre implementar). Em paralelo, há igualmente uma estagnação da produtividade que o progresso tecnológico não está a travar e que tem provavelmente que ver com o facto de que a terceira revolução industrial não está a ter, nem de perto nem de longe, o efeito da primeira e da segunda (do carvão e do vapor, e do petróleo e da eletricidade, respetivamente). Ou a Esquerda é capaz de avançar com novas soluções para estes problemas, ou vai mesmo pelo cano abaixo... E isto tem muito mais que ver com distribuição do trabalho, métodos de gestão e inovação do que com a questão de sabermos qual é o modelo da boa sociedade. Requer Tecnocracia de Esquerda, antes de requerer Filosofia Política (e note-se o desastre que foram as experiências marxistas em todas estas matérias)... Por isso é que o Liberal Mário Centeno é mesmo o Economista mais radical que temos em Portugal, porque mantém a Geringonça a funcionar…”
Como aqui tenho referido existe uma contradição insanável entre mim e Jaime Santos: enquanto continuo a apostar no marxismo (devidamente atualizado para as circunstâncias presentes e em função dos ensinamentos conferidos pela História) como bússola orientadora da nossa evolução civilizacional, o nosso interlocutor cola-lhe um anátema incontornável, defendendo que todas as experiências de passagem da teoria de Marx e Engels à prática resultaram em tragédias com inumeráveis vítimas a contabilizar em seu desfavor.
Concordo que qualquer modelo ideológico futuro não pode isentar-se de dar solução à perda de milhões de empregos à conta do inevitável progresso tecnológico. Nem pôr o pescoço debaixo da areia para não ver a importância de reverter a ameaça suscitada pelo aquecimento global do planeta. Nesse sentido subscrevo por inteiro a ideia de ser estulta a vontade do PCP em voltar atrás no tempo e apostar nas antigas indústrias dos anos 60 ou 70 para garantir o direito ao trabalho á maioria da população.
No que discordo de Jaime Santos é na forma como condena as esquerdas por não encontrarem soluções passíveis de conseguirem uma melhor distribuição do trabalho num cenário capaz de aliar decrescimento económico com prosperidade e dignidade social. Será que as direitas possuem alternativas, que impeçam uma imprevisível turbulência social e política? Do que vimos desde o crepúsculo irreversível do ideário social-democrata, não existem modelos de sucesso balizados na defesa das leis de mercado e da concorrência em época de globalização.
Concedo que tanto eu como o Jaime Santos nos podemos acusar mutuamente de sermos os pais da história contada pelo João Tordo: nem eu quero ver a falência dos modelos marxistas, nem ele acede à possibilidade de eles não estarem tão datados e ultrapassados quanto julga.
Foi Mandela quem disse um dia que os impossíveis só o são até se tornarem possíveis. E a solução poderá ser a de não complexificar, a de não tornar difícil o que deve ser «Kiss» (keep it smart and simple). Afinal Einstein só conseguiu demonstrar a teoria da relatividade quando abandonou a tentativa de demonstração num modelo tridimensional para um outro unidimensional. Talvez o marxismo precise disso mesmo: em vez de se baralhar com tanta polémica em seu torno talvez só tenha de voltar ao essencial, ao que é invisível para os olhos, mas torna-se óbvio quando visto por outras lentes: a agudização da luta de classes tenderá sempre a resolver-se numa contradição, que beneficiará finalmente os 99% de explorados e neutralizará o 1% de exploradores. Chamem-se uns proletários e outros burgueses, ou trabalhadores uns e plutocratas os outros.
Há leis sociais, que têm tanto de indiscutível quanto os mais firmes axiomas matemáticos!

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Festa laranja foi afinal cinzenta

Obviamente que não vi o discurso de Passos Coelho na Festa do Pontal, muito embora ele me interesse como barómetro do estado de alma das hostes laranjas. Por isso mesmo socorro-me do relato de Maria Lopes, jornalista do «Público» incumbida da reportagem, que viu uma “plateia pouco reativa na maior parte do tempo que Pedro Passos Coelho discursou”. E se teve mais do que ensejo para tal, porque o discurso prolongou-se por 51 entediantes minutos, sem que nele houvesse mais do que verbosidade inócua e repetitiva.
A jornalista reconhece que “não houve grandes palmas, nem irromperam assobios como noutros tempos, nem mesmo ovação. Nem o entusiasmo das fotografias e das palmadas nas costas entre os convivas.”
Sinal de mudança inquietante para o ainda maior partido da oposição foi a ausência de jovens: “havia, pelo contrário, muita gente aparentando idade de reforma, o que resultou numa plateia bem mais amorfa do que em festas anteriores.”
À esquerda podemos congratularmo-nos com esse desfavor dos antigos simpatizantes laranja relativamente ao seu líder. Tomáramos nós, que ele se eternizasse em tal cargo, porque há ainda tanto para recuperar dos desvarios privatizadores e desregulamentadores das direitas nos anos de cavaquismo, barrosismo e passismo. Ao contrário do que ontem se ouviu no Pontal, não é em retomar os trilhos de anos idos, que reside o problema. Passos até errou factualmente, quando invocou o desejo das esquerdas em regressar aos anos 80, como se essa não tivesse sido uma década de má memória ao padecerem-se os efeitos das políticas do filho do gasolineiro de Boliqueime.
Se queria diabolizar as nacionalizações, Passos deveria ser obrigado a responder perante o país no que se ganhou com privatizações como a da EDP, da Galp, da PT, dos Bancos, dos CTT, da ANA ou da Cimpor? O que se ganharia com a entrega da TAP e da generalidade das empresas de transportes a interesses estrangeiros?
Não se lhe poderiam aceitar como respostas as palavras balofas, que preenchem os seus discursos. Deveria, sim, demonstrar preto-no-branco com números irrepreensíveis, que o país ficou melhor com essa perda de anéis do que com a sua conservação. Porque é cada vez mais evidente para uma grande maioria de eleitores, que os interesses representados pelas direitas são muito exíguos em dimensão por muito que pareçam relevantes na comunicação social. Mas já nem essa consegue manipular suficientemente os incautos, para que eles se ponham a apreciar as cinzentas festividades laranjas. 

Ainda não é a mudança, mas pode ser um primeiro passo

“A Sociedade dos Sonhadores Involuntários” foi um dos melhores livros que tive o privilégio de conhecer no ano em curso. Nunca José Eduardo Agualusa foi tão explicito na crítica, que faz ao poder político do MPLA, tomando como contraponto a justeza da posição dos “revus”. E com a vantagem de estar tão bem escrito e povoado de personagens memoráveis.
Ao chegarmos à última página cria-se a sensação de faltar pouco para que o regime caia e dê lugar a um outro, efetivamente democrático e disposto a combater a pobreza e a corrupção.
Há quem se iluda com alguns sinais de mudança relacionados com a possibilidade de o MPLA não repetir a maioria absoluta nas eleições desta semana. Obrigado a governar com o contínuo escrutínio da oposição será crível que minguem os aspetos mais ditatoriais do regime. A dúvida será a de saber até que ponto essa maioritária contracorrente representará as aspirações das camadas mais jovens, que nem conheceram a época colonial portuguesa, nem a guerra civil com a UNITA, não se enquadrando nos valores e nas propostas dos dois maiores partidos que a representam, ambos liderados por antigos lugares-tenentes de Jonas Savimbi.
Daí que os sonhadores involuntários do romance de Agualusa ainda tenham muito que porfiar: não é por acaso, que os “revus” apelam à abstenção por não confiarem o voto a nenhum dos partidos na liça. Se a saída de Zedu já desinfeta razoavelmente o ambiente tóxico de uma sociedade, que nascera alimentada com tantas promessas e virou distopia, ainda não é para amanhã que as mudanças substantivas ocorrerão. A luta irá continuar...

domingo, 13 de agosto de 2017

Marcelo enquanto potencial cúmplice de um roubo!

Nos seus textos de sexta-feira e de sábado, Daniel Oliveira regressa á questão do veto de Marcelo Rebelo de Sousa, que pretende evitar a municipalização definitiva da Carris e favorecer a sua eventual privatização, mesmo que sob a capa da desonesta «concessão».
Sendo o ordenamento urbano uma questão fundamental para a gestão de toda as Áreas Metropolitanas das grandes cidades não se entende como ela pode ser executada de para satisfazer o bem público se não contar com o controle efetivo dos principais transportes de forma a retirar progressivamente os automóveis das suas cada vez mais congestionadas vias rodoviárias. Por isso mesmo faria todo o sentido, que não estivéssemos apenas a considerar para Lisboa a Carris, mas também o Metropolitano, a Transtejo, a Soflusa e as empresas ferroviárias, que exploram as linhas de Cascais, de Sintra e da Azambuja.
Em todas essas empresas o fundamental não é o lucro, que os seus donos ou concessionários possam garantir - e com os quais o Presidente da República parece muito preocupado! - mas o que o país possa poupar em combustíveis, que deixam de se importar ou em horas de trabalho, que os engarrafamentos tendem aleatoriamente a condicionar.
Explica-se que, tendo presente essa visão para o país, o governo decida assumir a divida da Carris em nome do Estado, que já era de 700 milhões de euros, entregando-a sem esse encargo à Câmara Municipal de Lisboa. Trata-se de um primeiro passo para o objetivo mais ambicioso de garantir um serviço municipal de transportes de qualidade, que iniba muitos dos que se deslocam em viatura própria para o centro da cidade de o continuarem a fazer. Idealmente, e se este tipo de cultura política vingar, teremos a longo prazo a cidade entregue a transportes coletivos de qualidade e a custos atrativos.
O que Marcelo intentou com o seu veto foi possibilitar uma chorudo negócio para os privados. Imagine-se que os deuses enlouqueciam e que Teresa Leal Coelho e Assunção Cristas conseguiam um resultado eleitoral, que lhes permitisse destruir tudo quanto se conseguiu com António Costa e Fernando Medina nos últimos doze anos. Ei-las a seguirem a lógica do (des)governo anterior e a entregarem a Carris a algum consórcio mexicano sem os encargos com a dívida, que acabaram de ser saneados pelo governo. Que golpada estaria assim em causa! Tratar-se-ia de um autêntico “filet mignon” sem qualquer osso ou nervo.
Por isso, muito consistentemente, Daniel Oliveira diz que “se o Estado oferece à Câmara o seu património limpo de dívidas tem todo o direito a exigir que ele não venha a ser vendido ou concessionado por quem o recebeu sem custos. Se assim não fosse estaríamos perante um roubo.” Que seria, igualmente, uma fraude política avalizada conscientemente por um Presidente que, no essencial, nunca esconde aquilo que efetivamente é!

sábado, 12 de agosto de 2017

Frustrados à solta … por enquanto

Continuando os incêndios a rivalizar com os primeiros jogos da nova época de futebol enquanto temas prioritários da atividade informativa das nossas televisões, forçoso é virarmos as antenas para os Estados Unidos onde se agudiza a confrontação entre a extrema-direita, que levou Trump à Casa Branca e a grande maioria de cidadãos que se lhe opõem.
Em aparência podemos sentir alguma inquietação com três tipos de sinais de dimensão distinta e agora na ordem do dia: um deles teve a ver com o tal engenheiro da Google, que se viu despedido, depois de acusar a empresa, e em geral todas as de Silicon Valley, por estarem dominadas por uma “cultura de esquerda”, que explicaria os prejuízos de rentabilidade causados por recrutamento de mulheres e de pessoas de outras minorias, quando, a seu ver, e de acordo com “conclusões científicas” que ninguém avaliza, os brancos norte-americanos seriam muito mais competentes e produtivos.
O sexismo e o racismo de tal energúmeno deu para concluir que, em certos aspetos, recuámos cinquenta anos e torna-se urgente recuperar as grandes lutas dos anos 60 em prol da defesa da Igualdade das Mulheres e dos Direitos Cívicos. Uma vez mais conclui-se não existirem vitórias definitivas, nunca se devendo baixar a guarda quanto ás resistências dos que se sentiram por elas derrotados.
Claro que esse engenheiro logo se tornou num herói para a extrema-direita, que o apresentou como mártir nas suas lutas contra o “politicamente correto”.
Foi essa mesma área política que se manifestou este fim-de-semana em Charlottesville, na Virgínia, a pretexto de ter sido removida uma estátua do general Lee, um dos heróis dos confederados esclavagistas. Os números oficiais apontam para um máximo de seis mil fascistas num desfile pelas ruas da cidade, e sobretudo, junto ao campus universitário, mas conseguiram impressionar pela similitude dos seus rituais com os dos nazis. Embora silenciando-se durante demasiado tempo para ver até que ponto conseguiria cavalgar uma onda de apoio a esse movimento, Trump lá teve de, a contragosto, o vir condenar. Se tinha dúvidas a rejeição nacional a tais criminosos obrigou-o a contrariar os seus tenebrosos sentimentos.
O terceiro sinal continua a ser protagonizado por Trump, que tanto ameaça atacar militarmente a Coreia do Norte como a Venezuela, muito embora a China e a Rússia já lhe tenham oposto linhas vermelhas quanto ao primeiro daqueles potenciais conflitos: ficarão neutrais se a iniciativa de ataque for de Kim Jong-un, mas nunca permitirão, que se altere o atual equilíbrio de forças na península em causa.
Embora os media explorem o medo de um eventual conflito nuclear, ele será pouco crível. Pelo contrário: quer na campanha misógina do ex-empregado da Google, quer na demonstração de força neonazi, quer no inevitável recuo de Trump na sua retórica idiota, serão esses promotores dos preconceitos do passado a terem de meter a viola no saco e a dedicarem-se a bem mais inofensivas catarses dos ódios que os habitam.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

A guerra aos desvalidos

Se este é ainda um tempo com muitos fogos, em grande parte de origem criminosa, mas aproveitando a oportunidade de sobrarem muitas áreas florestais abandonadas ou rendidas ao eucalipto, o verão vai avançando para a sua segunda metade e as direitas devem andar em grande sobressalto por voltarem a sobressair algumas notícias muito favoráveis ao governo e à maioria parlamentar. Não só o desemprego desce para a casa dos 8%, como existe uma maior aposta dos jovens no acesso ao ensino superior voltando a surgirem tantos candidatos como em 2009, com a vantagem de a limitada demografia valorizar tão expressiva confiança no futuro e desejo de ir mais longe na formação académica.
Se nos textos mais recentes, centralizámos a atenção nos efeitos dramáticos que os bons indicadores e sondagens vão tendo no mocrocosmos laranja, temos passado algo ao lado do CDS, embora ele mereça idêntica atenção. È que, enquanto o ex-parceiro de coligação procura iludir-se com a possibilidade de convencerem eleitores com a influência da sua desgovernação nos sucessos atuais, o partido de Cristas e de Portas atirou para trás das costas a reivindicada inspiração democrata-cristã e ei-lo a declarar guerra aos pobres por causa do RSI e aos refugiados pela recém-aprovada legislação destinada a facilitar-lhes a legalização. 
Na clique dirigente do Largo do Caldas vigora esta regra: se é para o Estado ajudar os banqueiros ricos até se assinam de cruz resoluções de bancos enquanto se está na praia. Se os estrangeiros que querem radicar-se entre nós são ricos até se criam vistos gold para lhes facilitar o intento. Mas se uns e outros andam aos caídos, sem terem sequer meios de subsistência, ei-los no tiro ao alvo dos cúmplices de Cristas. Porque são tidos como uns madraços apenas interessados em virem viver à conta do nosso dinheirinho. É um modelo político xenófobo, racista, populista e mentiroso, mas não se pode dizer que as nossas direitas não andem a experimentar discursos odiosos, conquanto lhes garantam votos.