domingo, 25 de junho de 2017

Um sonso persistente, mesmo que inepto

Nos últimos anos as estratégias fascistas têm sabido adaptar-se às circunstâncias contemporâneas, tornando-se particularmente bem sucedidas no recurso à demagogia mais primária, às notícias falsas, ao contorno dos dados de forma a dar-lhes uma leitura mais de acordo com os seus intentos.
Trump foi o mais bem sucedido nessa atualização das metodologias, mas Orban, Erdogan, Duterte ou o gémeo sobrevivente da Polónia também alcançaram o poder com tais «ferramentas». Só não foram suficientes para os fascistas, que têm assombrado as incipientes democracias europeias nos últimos anos, mormente na Áustria, na Holanda, na França ou em Itália.
 A última eleição presidenciais em Portugal foi ocasião interessante para ver despontar esse tipo de demagogos. Três deles destacaram-se pela falta de vergonha com que esgrimiram argumentos, só nos valendo o facto de todos serem uns meninos ao lado de uma Marine Le Pen ou de um Geert Wilders: Henrique Neto já não passa de um velho dos Marretas, Tino de Rans é o idiota da aldeia com pretensões a ser levado a sério e Paulo Morais lembra aqueles acólitos de igreja, que envelheceram sem cumprirem o desejo de se verem investidos na missão de sacristão.
Vem isto a propósito deste último continuar a alimentar uma campanha de persistente apelo a emoções primárias na esperança de vir a ser mais levado a sério do que no inverno do ano passado, quando os seus votos nem sequer lhe bastaram para merecer a subsidiação da tíbia campanha.
Agora ataca as PPP’s das rodoviárias. De facto quem não gostaria, que elas fossem rapidamente nacionalizadas, poupando ao Estado o pagamento de verbas significativas, que tanta falta fazem ao investimento público? Estivéssemos nós numa situação revolucionária e seria medida tomada com plena justificação. Mas um governo enquadrado na União Europeia, com regras a cumprir, pode dar-se a tal extremo? Claro que não, sob pena de vir a pagar indemnizações avultadas em processos judiciais quase por certo perdidos!
E que dizer da anunciada proposta para que o Ministério Público averigue tais contratos? O complexado ex-acólito por certo não ignora que os atos de governo dificilmente podem ser questionados a menos que se descobrissem provas evidentes de corrupção na sua negociação.
É tudo isso que me faz execrar Paulo Morais, mudando de canal sempre que ele me ofende ao aparecer nas  televisões: essa prática de aparentar honestidade com segundos objetivos, ambicionando  explorar as paixões populares, é do que de mais repugnante posso encarar na vida pública. Até porque sabem-se lá os vícios privados que se escondem naquela cara de sonso!

A teimosia dos falhados

Quem não deve não teme! É essa a lógica seguida pelo governo de António Costa em relação a tudo quanto se passou em Pedrógão Grande na semana passada. Sem qualquer entrave a comissão independente, pretendida pelo PSD, fará o seu trabalho com acesso a todas as informações disponíveis e as ainda em processo de recolha e lavrará as suas conclusões.
Para quê, questiona-se? O PSD e os CDS tentarão extrair das conclusões uma linha ou uma frase a que se agarrem como cão a osso para exigir a demissão da ministra da Administração Interna. Sempre presos a sofismas, que depois falham, as direitas desistiram do Diabo, mas agarram-se à desesperada hipótese de conseguirem que, caindo um ministro, logo todos os outros tombarão, permitindo-lhe um bombardeamento mediático de falácias suficientemente bem sucedidas para infletirem a queda ininterrupta nas sondagens.
Terão alguma sorte em tal desígnio? Quase por certo não, a menos que fossem buscar ao «El Mundo» o «misterioso» Sebastião Pereira para liderar essa comissão independente. Mas, como nenhum especialista digno desse nome deseja associar-se a conclusões, que não sejam científicas, o mais certo é a inculpação do desordenamento do território com a responsabilidade a atravessar transversalmente todos os governos dos últimos trinta anos sem exceção, mas com particular incidência nos promotores da desertificação rural (nos mandatos de Cavaco Silva) e de liberalização da expansão do eucalipto (no de Passos Coelho e Assunção Cristas).
É por tudo isso que acredito na repetição do que já vem sendo demonstrado como evidência constante: as expetativas das direitas para porem em causa o governo socialista acabam atempadamente por estiolarem-se na sua insignificância.

sábado, 24 de junho de 2017

A origem do cenário de cinzas

Como não dar razão a Pacheco Pereira, quando ele descreve a maioria das transmissões televisivas dos últimos dias como um enorme exercício de «masturbação da dor»? Valeu tudo para garantir audiências e, tanto quanto possível, incriminar o governo por tudo quanto, legitimamente ou não, se inscreveria no âmbito das suas competências. Ainda assim alguns desses trabalhos informativos tiveram o condão de exemplificar a raiz em que assenta o problema anual dos fogos florestais: foi o caso da entrevista com o “benjamim” de uma aldeia com cinco habitantes, dos quais esse homem de 67 anos, era o menos incapacitado.
Em regiões tão desertificadas, com espaços habitacionais quase inteiramente desocupados, restando um punhado de idosos, como é possível garantir a limpeza dos matos se eles mal ganham para a alimentação e para os remédios?
Olhando para o passado foi Cavaco o «autor» deste Portugal, que recebeu subsídios fartos para abandonar a agricultura e as pescas. Não  foi por acaso que, tão só convidado a formar o seu primeiro governo, foi buscar o Ministro da Agricultura à Soporcel. Essa nomeação continha todo o programa que  se seguiria nos anos dos governos AD: o abandono dos campos, a ocupação progressiva do território com eucaliptos. Formaram-se desde então uma catadupa de lobistas da fileira das celuloses, que iremos ouvir nos próximos dias repetirem tantas vezes quanto as necessárias, que o eucalipto é «nosso amigo», um «petróleo verde», que tanto nos poderá enriquecer. Seria muito positivo que, por cada uma dessas intervenções, tais “especialistas” e “professores universitários” nos elucidassem quanto aos patrocínios escondidos por trás do frete a que se dispõem.
Seriam depois participantes nesses governos das direitas, que constituiriam o BPN e proporiam a Durão Barroso a parceria público-privada para a utilização do SIRESP, equipamento de comunicações, que valeria no máximo 100 milhões de euros e foi comprado por cinco vezes mais.
Do que os cavaquistas e as direitas em geral não terão assim tanta culpa é quanto ao aquecimento global, já manifestado no início precoce do verão enquanto ainda deveria ser só primavera, e estendendo-se outono adentro até ao começo da estação das chuvas, concentradas num cada vez mais exíguo período de inverno. No sábado da tragédia a temperatura média foi de 29,4ºC, ou seja dez a mais do que se deveria verificar nessa altura.
Agora a dificuldade será corrigir  o que todos sabem estar mal: as propriedades muito pequenas e segmentadas, a vegetação descontrolada a tomar conta de todos os terrenos abandonados, a inexistência de um ordenamento criterioso com caminhos de acesso para os meios de combate a incêndios e abertura de clareiras para a preparação de “fogo amigo”. Mas, tendo em conta a reação truculenta dos que viram as suas casas derrubadas nas ilhas em frente a Faro e a Olhão, bem se poderá esperar bem pior, se o governo avançar com expropriações coercivas das pequenas propriedades regressadas ao seu estado mais selvagem. Não faltará Cristas a esganiçar-se contra o que entenderá ser um atentado à propriedade privada.
Certo é que, por conta do sucedido, este governo será sujeito a trabalhos esforçados nos próximos meses. Sobretudo se quiser reduzir as possibilidades de ver repetido este desolador cenário nos anos vindouros...

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Ávido de inquéritos o PSD bem poderia responder a questões pertinentes sobre o SIRESP

Um mistério para os partidos do anterior governo esclarecerem: porque é que chegaram a acordo em abril de 2015 com o consórcio fornecedor do SIRESP para uma redução de 25 milhões de euros até final do contrato  em 2021 e não o concretizaram com a correspondente decisão no Conselho de Ministros? Será porque isso corresponderia a um corte nas «rendas» no grupo cavaquista desse consórcio, igualmente associado à bancarrota do BPN?
Seria já o atual governo a implementar tal corte em dezembro desse ano, poucos dias depois de entrar em funções.
Quem assina essa peça jornalística no «Público» - Paulo Pena, jornalista cuja credibilidade prezo - procurou junto de Luís Marques Guedes, então secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, a razão para nunca se ter agendado a aprovação desse acordo, mas, sabe-se lá porquê, ele escusou-se a responder.
Fernando Alexandre, economista e professor da Universidade do Minho, então envolvido na negociação, não tem duvidas quanto ao que deveria ser feito de imediato: a nacionalização do sistema para se o poder melhorar já num contexto diferente do atual, evitando-se a aquisição de outro sistema em 2021, quando terminar a atual Parceria Pública-Privada.
O texto não o pressupõe, mas as muitas notícias destes últimos  dias sobre os falhanços do sistema de Redes de Emergência e de Segurança no sábado transato (uns dizem ter havido falhas momentâneas, outros falam de 14 horas) não  terá, afinal, a ver com o posicionamento dos concorrentes para conseguir contrato chorudo nessa altura? Uma outra questão pertinente tendo em conta o comportamento ganancioso de quem lucra com este tipo de sinistro.

Dois figurões candidatos a incendiários

1. Se há quem deveria mostrar algum recato em relação ao aproveitamento político da tragédia de Pedrógão Grande, Assunção Cristas figuraria por certo na primeira fila. Não foi ela quem, durante os quatro anos em que assumiu a responsabilidade pelas florestas portuguesas, cuidou de maximizar a plantação de eucaliptos?
A falta de vergonha é imensa quando aparece em tom pespeneta a inquirir António Costa na forma de vinte cinco perguntas divulgadas previamente à comunicação social.
Porque é educado e mostra um notável controle a reagir a tais desaforos, o primeiro-ministro por certo porá algum assessor a dar resposta à sucessora de Paulo Portas. Mas que o mais comum dos mortais trataria de atirar esse rol para o lixo não tenho a menor dúvida. Porque é esse o sítio certo para acolher tal obscenidade.
De qualquer forma, e muito embora o estar fora do país me impeça de acompanhar o debate quinzenal da próxima semana, está prometida violenta peixeirada por conta de Montenegro e de Cristas. Só tenho pena de não assistir em direto à elegância com que António Costa responderá com contundência assassina a tais figurões.
2. Estranhei as palavras equilibradas de Jaime Marta Soares no sábado, quando foi dos primeiros comentadores do sucedido em Pedrógão. Mas porque um escorpião nunca deixa de revelar a sua verdadeira natureza ei-lo a lançar a confusão sobre a origem do incêndio atribuindo-o a uma suposta mão criminosa.
Obviamente que a Judiciária não ficou satisfeita, tão lesta se tinha revelado a demonstrar a origem natural do sinistro ao encontrar a árvore atingida pela descarga elétrica ao princípio da tarde de sábado: não só ela tinha a casca aberta como sempre sucede nessas situações  como o chão em volta estava com a terra recozida, mais arenosa e com um brilho diferente, quase vitrificado. De acordo com as melhores práticas científicas o ground zero do fogo não deixava a menor dúvida quanto á sua efetiva localização.
Perante a ciência, Marta Soares apostou em ser a voz por que esperavam todos os órgãos de comunicação social para apimentarem as suas reportagens: sem qualquer fundamento inventou a teoria da mão invisível. Ora os registos revelam que, entre as 14.30 e as 16 horas dessa tarde fatídica ocorreram trezentas descargas elétricas na região de Pedrógão Grande e que o alarme de incêndio aconteceu ás 14.43. Onde estão afinal os comprovativos de já existir ignição anterior a esse alerta?
Conseguindo lançar a confusão Marta Soares remeteu-se à clandestinidade: a Judiciária bem procura, que ele lhe dê as provas do que disse, mas o boateiro ainda não encontrou disponibilidade de agenda para o fazer.  É preciso fazer um desenho sobre o que está aqui em causa?
3. O fenómeno, que terá apanhado de surpresa a maior parte das vítimas de Pedrógão tem uma designação, que desconhecia até agora: o downburst. Trata-se de uma massa de ar descendente , que chega ao solo e se espalha de forma radial, causando ventos fortes. Parece um tornado, mas não o é.
Em função de quem sobreviveu para testemunhar o ocorrido, os peritos inclinam-se para considerar este tipo de comportamento da Natureza como a causa mais provável para, em cerca de quatrocentos metros, morrerem tantas pessoas.
4. Nos meus “anos africanos” assisti muito frequentemente a trovoadas muito violentas, quer secas, quer húmidas. No Gabão, nos Camarões ou na Costa do Marfim, ou menos frequentemente na Nigéria ou na Serra Leoa, elas apareciam subitamente quase sem se fazerem anunciar e iluminando os céus plúmbeos com violentos encadeamentos.
O que terá sucedido em Pedrógão terá sido algo de semelhante: nas nossas latitudes são as nuvens em forma de flocos de algodão a suscitarem esse tipo de descargas, sobretudo se revelam significativa extensão vertical. Porque a camada de ar imediatamente abaixo de tal nuvem estava demasiado seca - a humidade estava abaixo dos 20%! - a chuva nela contida evaporou. Daí que os curto-circuitos entre a nuvem e terra firme contivessem tal perigosidade. Com as consequências conhecidas.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

O jornalismo ignóbil de outras paragens

Nestes dias temo-nos queixado do mau jornalismo, do quanto ele consegue ser tendencioso, mas trata-se de fenómeno que não é exclusivo do nosso cantinho à beira mar plantado. Em Inglaterra grassa uma intensa campanha por Jeremy Corbyn não se ter curvado perante a rainha.
Nós, os republicanos, reagimos com a nossa lógica: «Era só o que faltava!». Identificamo-nos, pois - e plenamente! -, com os sentimentos antimonárquicos do líder trabalhista. Mas a tal imprensa, que anda furibunda com o seu resultado eleitoral tudo faz para o defenestrar, agora com tortuosidade ainda maior do que já o fazia antes de 8 de junho. Procura desqualificá-lo junto dos britânicos que ainda associam a sua identidade à instituição real.
E, no entanto, Gordon Brown, enquanto primeiro-ministro, também se eximiu de curvar a cerviz e, espante-se!, até David Cameron agiu do mesmo modo. Então sem o escândalo que os tabloides londrinos andam a pretender alastrar.
Outro bom exemplo de um tipo de comunicação social facciosa passou-se em Espanha, onde o «El Mundo» se atreveu a classificar de caos o que se passou no combate ao fogo em Pedrógão Grande e aventou a possibilidade de o governo de António Costa ficar preso pelos arames.
É claro que, perante interpretação tão soez da tragédia, as direitas exultaram, publicitando a manchete do jornal espanhol. Mas, porque não somos ingénuos, devemos compreender o que levou aquela publicação a avançar com tão despudorada caricatura do que se passou entre nós.
Recordemos que o «El Mundo» foi um jornal criado pela direita espanhola para combater o sucesso do «El Pais», mais afeto aos socialistas. Toda a sua agenda tem por causa a tentativa de evitar o derrube do PP de Rajoy pelos socialistas de Pedro Sánchez. Por isso mesmo destratam este último com tanta ferocidade, quanto a manifestada pelos tabloides ingleses relativamente a Corbyn, tendo falhado estrondosamente no apoio velado a Susana Diaz para tornar-se na nova secretária-geral do PSOE e nele impor-lhe uma estratégia de coligação tácita com a direita.
Para o «El Mundo», e quem o patrocina, o horror será uma coligação de toda a esquerda espanhola a exemplo do que se está a verificar em Portugal. Daí a intenção de manchar o mais possível a ação do governo de António Costa desinformando os espanhóis das virtualidades do que aqui se vai passando. Por isso mesmo poderemos contar com manchetes de primeira página do «El Mundo», sempre que encontrar pretextos para maldizer as esquerdas lusas, mas nele não se encontrará sequer uma nota de rodapé a informar que, por exemplo, Portugal conseguirá em 2017 o maior crescimento do século e em tendência convergente com a média europeia.
Mas, porque o post de hoje versa sobre o que se passa além-fronteiras, importa sublinhar os primeiros sinais da degenerescência do movimento político lançado por Emmanuel Macron para destruir os socialistas franceses. Os primeiros ministros indiciados por corrupção já se afastaram e os próximos tempos adivinham-se muito interessantes de acompanhar. Porque a inconsistência ideológica dos novos deputados far-se-á sentir facilmente nos próximos meses, sobretudo quando as ruas se incendiarem com as lutas contra o pacote de medidas anti-laborais pronto para ser apresentado.  Muitos dos que se deixaram iludir pela suposta competência do ponta-de-lança da banca financeira sentirão na pele as consequências do austericídio thatcheriano aí em marcha e cuidarão de se realinhar com quem sempre compreendeu o que estava em causa.
É claro que haverá quem venha agitar o papão da extrema-direita, como se a alternativa a Macron fosse Marine Le Pen. Mera falácia: nas lutas laborais estarão os sindicatos comunistas e socialistas e é com eles que se garantirá a oposição às políticas pretendidas pela nova coqueluche das direitas europeias. E nós temos um bom exemplo de algo de semelhante nos anos 80:o PRD de Eanes foi constituído  para acabar com o Partido Socialista de Mário Soares e, de facto, nas eleições seguintes, conseguiu ter suficiente sucesso para que este último tivesse o pior resultado eleitoral de sempre. Depois veio a desagregação: apodrecendo rapidamente o PRD acabou por ver a sua sigla comprada pela extrema-direita desejosa de se apossar de uma marca, que julgava de valor potencial superior ao que então tinha. Quanto ao  Partido Socialista, o seu revigoramento, permitiu-lhe voltar a crescer a aceder à governação com maioria absoluta (com Sócrates) ou quase (com Guterres).
Quem deu por morto  o Partido de Jean Jaurés terá pecado por manifesto exagero!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Os abutres não deixariam de aproveitar a tragédia em seu favor

Não era preciso recorrermos a nenhuma vidente para sabermos o que iria acontecer: quando começaram a surgir as notícias sobre vítimas mortais no  incêndio de Pedrógão Grande estava-se mesmo a ver o aproveitamento que as direitas, coligadas com a comunicação social a elas afeta (que é quase toda!) haveria de fazer do caso o grande foco de contestação ao governo, que de outro modo, não conseguia pôr  em causa por nenhum outro pretexto.
Marcelo, prudente, ainda apelou à contenção e à unidade nacional, embora não deixasse de semear de «agoras» as suas intervenções, como se se preparasse para, ao menor pretexto, questionar uma governação, que apenas tolera por manifesta falta de alternativa do seu campo político.
As exéquias fúnebres ainda estavam por cumprir e já abutres pairavam por cima dos cemitérios com a candidata laranja a Lisboa a pretender comissões independentes para averiguar as causas e a forma como o sinistro foi combatido, como se não  existisse competência em quem tem a obrigação de proceder a tal análise. No CDS um obscuro deputado, cuja presença no hemiciclo tem passado mais do que despercebida, veio falar em dói-dóis como se toda a situação se compadecesse com pilhérias parvas.
O grande ataque veio, porém, dos meios de comunicação social que, como alguém tweetou, mostrou toda a sua “espetacularidade” depois de recente Congresso recheado de lindas palavras e pias intenções. Para além do voyeurismo indecente de se fazerem reportagens com cadáveres em segundo plano ou da falta da mínima ponta de vergonha ao interrogarem pessoas ainda em choque pela perda de entes queridos, houve a clara intenção de mover equipas de reportagem para sítios onde os bombeiros não chegavam, de forma a «denunciar» a mais do que desmentida falta de meios, ou de repetirem incessantemente «fake news», avidamente convencidos de, através delas, porem em causa a eficácia do dispositivo no terreno.
Agarrando-se a todos os argumentos inimagináveis até punham em causa não se ter encerrado a estrada onde tantos morreram, como se a rapidez com que o incêndio se propagou possibilitasse a movimentação de centenas de polícias para as dezenas de acessos a ela conducentes.
Se a estória do Canadair acidentado teve todo o aspeto de uma informação disparatada emitida por alguém muito abaixo da escala hierárquica mobilizada para a operação, mas que fazia muito jeito noticiar enquanto pudesse ser usada e abusada, a dos entraves supostamente colocados à entrada de bombeiros galegos teve a clara intenção de possibilitar a sua repetição por mil vezes para a tornar em incontestável verdade. A tal ponto que, na inenarrável entrevista ao primeiro-ministro na TVI, Judite de Sousa agarrava-se a ela como náufraga a exígua boia no meio do oceano da sua desesperada tentativa em se salvar da violenta contestação de que foi objeto nos últimos dias.
Nesse sentido só podemos elogiar a calma com que António Costa replicou a dois mabecos (roubo esta imagem ao meu amigo Arnaldo Serrão!), cujo intento só parecia ser o de conseguirem ser mais agressivos e crapulosos do que José Gomes Ferreira. Depois de ter despedido Augusto Santos Silva da forma indecente como o fez, quando ainda vigorava o governo de Passos Coelho, o patrão-mor da TVI, Sérgio Figueiredo, continua a dar mostras do tipo de estratégia, que é a sua.
Os últimos dias têm demonstrado, que a grande oposição ao governo, continua a ser a das televisões e da generalidade da imprensa escrita. De Balsemão filho ao dono da Cofina, passando pelos mentores do tea party à portuguesa, acolitados no Observador e seus sucedâneos, prossegue e promete continuar, a tentativa de desgastar quem tão excelentes resultados tem conseguido nos indicadores económicos, financeiros e sociais. E se as esquerdas não tratam de resolver rapidamente este grosseiro desequilíbrio na gestão da informação, bem se poderão queixar quando as dificuldades não tiverem o carácter momentâneo do atual drama.

terça-feira, 20 de junho de 2017

A ética audiovisual e a manifesta falta dela

Contra a obscena utilização da tragédia de Pedrógão Grande pelas várias televisões, António Guerreiro escreveu um texto antológico no «Público» de hoje. Nele está a denúncia dos meios tecnológicos mais avançados, mormente os drones, para criar réplicas de filmes hollywoodianos utilizando as circunstâncias trágicas e respetivos cenários, para lhes dar substância.
O pequeno filme da SIC a sobrevoar a estrada onde tantos morreram e ao som de um tema wagneriano é comparado a uma das cenas mais conhecidas de «Apocalipse Now». E, no entanto, mais do que essa estética do horror, o que ali se revela é um despudor manifesto para com quantos ali haviam morrido.
A questão de Guerreiro é quase retórica: será que os jornalistas não têm pruridos deontológicos em relação ao que fazem ou lhes mandam fazer? As audiências valerão tudo? A necessidade de produzir horas e mais horas a repetir sempre o mesmo justifica o recurso ao discurso mais primário?
A alternativa seria a de se abreviar a informação, livrando-a da tralha, que só lhe acrescenta ruído. Mas o problema é este: como satisfazer o lado perversamente voyeurista dos que, de fora, se comprazem com o tipo de espetáculo, que lhes é tão lautamente servido pelos diversos canais?

Exigir o impossível ou conformarmo-nos com os maus hábitos?

A propósito do texto «Um Outro Mundo é Possível», o nosso leitor Jaime Santos fez um comentário de discordância, que me leva a reiterar o que então escrevi.
Ao contrário do que ele defende, aposto na necessidade de exigirmos dos políticos que nos governam uma probidade, que sei difícil de encontrar, mas comprovada em exemplos históricos indubitáveis. Não me conformo de modo algum com posições conformistas sobre a impossibilidade de controlar o lado sombrio da natureza humana, por muito que a História também esteja recheada de crueldades insuportáveis. Como se tem constatado no nosso irresoluto debate sobre as virtudes e limitações do Socialismo na sua versão marxista, sou o último a aceitar que sucessivos fracassos demonstrem a inexequibilidade da matriz em causa, apostando pelo contrário na capacidade de rastrear os erros e corrigi-los para, seguindo a lógica proposta por Samuel Beckett se falhe sempre, se falhe melhor em cada sucessiva tentativa.
Não enjeito a necessidade de controle, que o nosso interlocutor atribui quase em exclusividade aos defensores da Democracia Liberal. Por isso apoio a Regulamentação de todos os atos governativos e quantos a eles se associam. O escrutínio rigoroso constitui a melhor defesa contra as tentações corrompidas. Mas sou um defensor da governação norteada no respeito pelas Leis. E são estas, que devem ser melhoradas, blindadas quanto à sua utilização de forma oportunista ou venal.
Aqui fica a opinião crítica de Jaime Santos para um debate, que se alarga a quem nele se sentir estimulado:
A sua visão da História, meu caro, denota uma fé demasiado grande na competência dos políticos e dos Homens em geral, mesmo quando atuam com más intenções. Todos sabemos que eles são igualmente pressionados pelos seus eleitores e por forças populistas para lhes concederem segurança, a troco de liberdades, tipicamente apenas as dos outros, dos imigrantes, dos marginais. A Democracia Liberal, pelo contrário, assume que os homens precisam de controle não por serem monstros, mas sobretudo por serem venais e incompetentes. Os Socialistas irão falhar porque são eternamente incapazes de compreender isso. O Governo das Leis não nos protege apenas dos tiranos, mas igualmente da tirania das boas intenções (e se me chamar Conservador por lhe dizer isto, tomo-o como um elogio). Isto não quer dizer que eu discorde de Snowden, é precisamente o falhanço do modelo de governação das Leis que nos leva ao estado securitário presente, mas desagrada-me essa ideia de destruir o que existe, sabendo eu que a rutura (que é diferente da mudança pela reforma) é sempre para pior…

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A tragédia em três conclusões provisórias

Sobre a tragédia de Pedrógão Grande já se disse tanto disparate, que importa sintetizar três conclusões imediatas, sem prejuízo de outras, que as circunstâncias vierem a justificar.
A primeira diz respeito à alarvidade de uns quantos, que insistem em atribuir ao Estado as culpas do sucedido, como se fosse ele o responsável por fazer a manutenção das matas e florestas atingidas pelo fogo. Ora, de uma vez por todas, importa sublinhar que o Estado só é proprietário de 2% do espaço não urbano do território. E, sem prejuízo das iniciativas já em curso para identificar  os proprietários de todos os 98% remanescentes - e responsabilizá-los! - podemos imaginar o escândalo, que se levantaria por parte de Cristas se a solução fosse a expropriação sem indemnização de todos os terrenos abandonados ao seu estado selvagem? Não faltaria ouvi-la no seu característico estilo de «peixeirada» a zurzir contra a violação dos direitos de propriedade dos expropriados!
A segunda refere-se à crescente frequência de situações meteorológicas extremas, também entre nós, por causa de um aquecimento  global contra o qual tardam medidas determinadas e eficazes a nível internacional. Temperaturas e humidades como as agora verificadas, e em pleno mês de junho, tenderão a ser o nosso novo «normal». Com a agravante de todo o território estar convertido num barril de pólvora com todo o combustível (particularmente dos eucaliptais), que grassam de norte a sul.
A terceira e última tem a ver com a facilidade com que estas matérias noticiosas dão azo à manifestação do que os portugueses têm de pior na sua natureza. E não é apenas a reportagem de Judite de Sousa a demonstrá-lo com particular acuidade. Que dizer dos comentários venais de quem nas direitas viu a oportunidade para forçar a queda de uma ministra sem mácula na esperança de, fazendo tombar a primeira, o governo no seu todo acabasse por cair como se tivesse a «solidez» de um castelo de cartas. Ou - isto ainda mais me custa! - a atitude de muitos socialistas que ainda inconformados com a derrota do seu ex-líder ou o que entenderam ser o insuficiente apoio ao seu ex-ex-líder aproveitaram para ajudar à «festa», pondo os seus azedumes acima da desejável sensatez.

domingo, 18 de junho de 2017

Os incendiários à solta nas redes sociais

Infelizmente tenho experiência farta de incêndios. Só nos três anos, que trabalhei no paquete «Funchal» foram oito as vezes, que me vi envolvido no combate de primeira linha contra fogos ativos. A maior parte provocada por passageiros, que iam fumar para os camarotes antes de adormecerem e acordavam com os seus espaços já em chamas. Mas também outros de maiores dimensões, um na pastelaria de bordo e outro no quadro principal da Casa das Máquinas. Essas experiências serviram-me de confirmação do que aprendera nos livros: um incêndio é tão rápido no deflagrar quanto moroso a combater.
Não compreendo, por isso, certas reações, que vou constatando nas redes sociais, onde já surgem pedidos de prestação de contas a quem as tem acertadas e não merece ser contestado, sobretudo, nesta altura de prioridade dada à resolução de um sinistro ainda ativo. Uma das pessoas, que melhor conhece a matéria - o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses conhecido como dinossauro autárquico do PSD e, por isso mesmo, insuspeito de simpatias para com o governo - já foi explicito a referir não terem falhado meios, competências, rapidez de intervenção. Para Jaime Marta Soares a culpa só  pode ser atribuída à Natureza que, «quando se zanga», é desmedida. Sobretudo quando, como agora sucedeu, trovoadas secas provocaram ignições em sucessivos locais, afastados uns dos outros na mesma região.
No verão passado fui passar férias ao concelho vizinho ao de Pedrógão Grande, ficando no hotel na outra margem da barragem. O calor era igualmente intenso, acima dos 40ºC. A húmidade quase nula como agora. As deslocações cingiam-se às de carro, sempre com o ar condicionado no máximo. No entanto, ao atravessarmos as estradas da região encontrámos muitas manchas florestais, sobretudo de eucaliptos, que sabemos bem o quão facilmente ardem.
O problema reside precisamente nesse ordenamento do território, que está por fazer. Governos e autarquias deram todas as facilidades à indústria da celulose para que substituíssem a floresta pré-existente pela de árvores cujos efeitos nefastos no esgotamento dos veios freáticos é  conhecido. Não esqueçamos que, como ministra da agricultura, Assunção Cristas pretendia exponenciar a disseminação do eucalipto por mais vastas áreas do nosso território.
Daí que, se houver quem teime em pedir culpas, que o faça junto dos que procuraram ainda agravar a calamitosa situação existente. Quanto ao governo atual e à proteção civil dele dependente, aceite-se como boa a própria constatação de Marcelo Rebelo de Sousa: tudo quanto ter sido feito e continua a fazer-se é o máximo possível nestas circunstâncias.

 Infelizmente tenho experiência farta de incêndios. Só nos três anos, que trabalhei no paquete «Funchal» foram oito as vezes, que me vi envolvido no combate de primeira linha contra fogos ativos. A maior parte provocada por passageiros, que iam fumar para os camarotes antes de adormecerem e acordavam com os seus espaços já em chamas. Mas também outros de maiores dimensões, um na pastelaria de bordo e outro no quadro principal da Casa das Máquinas. Essas experiências serviram-me de confirmação do que aprendera nos livros: um incêndio é tão rápido no deflagrar quanto moroso a combater.
Não compreendo, por isso, certas reações, que vou constatando nas redes sociais, onde já surgem pedidos de prestação de contas a quem as tem acertadas e não merece ser contestado, sobretudo, nesta altura de prioridade dada à resolução de um sinistro ainda ativo. Uma das pessoas, que melhor conhece a matéria - o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses conhecido como dinossauro autárquico do PSD e, por isso mesmo, insuspeito de simpatias para com o governo - já foi explicito a referir não terem falhado meios, competências, rapidez de intervenção. Para Jaime Marta Soares a culpa só  pode ser atribuída à Natureza que, «quando se zanga», é desmedida. Sobretudo quando, como agora sucedeu, trovoadas secas provocaram ignições em sucessivos locais, afastados uns dos outros na mesma região.
No verão passado fui passar férias ao concelho vizinho ao de Pedrógão Grande, ficando no hotel na outra margem da barragem. O calor era igualmente intenso, acima dos 40ºC. A húmidade quase nula como agora. As deslocações cingiam-se às de carro, sempre com o ar condicionado no máximo. No entanto, ao atravessarmos as estradas da região encontrámos muitas manchas florestais, sobretudo de eucaliptos, que sabemos bem o quão facilmente ardem.
O problema reside precisamente nesse ordenamento do território, que está por fazer. Governos e autarquias deram todas as facilidades à indústria da celulose para que substituíssem a floresta pré-existente pela de árvores cujos efeitos nefastos no esgotamento dos veios freáticos é  conhecido. Não esqueçamos que, como ministra da agricultura, Assunção Cristas pretendia exponenciar a disseminação do eucalipto por mais vastas áreas do nosso território.
Daí que, se houver quem teime em pedir culpas, que o faça junto dos que procuraram ainda agravar a calamitosa situação existente. Quanto ao governo atual e à proteção civil dele dependente, aceite-se como boa a própria constatação de Marcelo Rebelo de Sousa: tudo quanto ter sido feito e continua a fazer-se é o máximo possível nestas circunstâncias. 

Um outro mundo é possível

Há seis meses, quando Putin dominava a cena política internacional e Trump preparava-se para ocupar a Casa Branca, a realizadora Flore Vasseur rodou um documentário de quase cinquenta minutos em que reuniu Edward Snowden, Larry Lessig e Birgitta Jónsdóttir num quarto de hotel em Moscovo para que discutissem se existe alguma possibilidade de salvação da Democracia, quando ela parece tão em risco. O título: «Meeting Snowden».
Do antigo colaborador da CIA e da NSA, que denunciou a espionagem intensiva praticada contra a população norte-americana e a dos seus aliados, não vale a pena acrescentar mais: ele é simplesmente um dos grandes heróis do nosso tempo, por muito que isso o obrigue a viver na dependência de uma autorização de residência há pouco renovada até abril de 2020. Questionado sobre a possibilidade de servir de moeda de troca num qualquer negócio entre Putin e Trump,  Snowden reconhece nada estar ao seu alcance para o evitar, mas, mesmo assim, reconheceria ter valido a pena a iniciativa, que deu ensejo ao hipócrita Obama de o chamar «traidor».
Larry Lessig é professor de Harvard e um denodado ativista no objetivo de mudar a legislação sobre o financiamento das campanhas eleitorais norte-americanas, apostando numa reaproximação efetiva entre os representantes da Democracia e o povo, de que supostamente seriam porta-vozes. Identificando um enorme abismo entre os políticos e os eleitores, ele explica a vitória de Trump  como sendo a de quem mostrou uma autenticidade politicamente incorreta contra a falsa integridade da opositora.
Quanto a Birgitta Jónsdóttir trata-se de uma deputada  islandesa do Partido dos Piratas, que já esteve quase a conseguir a liderança do Governo. Hoje continua motivada em conseguir a criação de um sistema  alternativo ao atual, fazendo com que as pessoas voltem a sentir-se parte da Democracia. E está convicta de que os governos só aceitam a pirataria se a controlarem em seu favor, execrando-a quando isso não sucede.
Snowden defende existir uma teoria dos dominós por parte dos principais governos ocidentais, apostados em cercearem uma a uma, as principais liberdades dos seus cidadãos. A ideia é convencê-los de que podem desistir delas, porque o Poder encarrega-se de lhes garantir a segurança. Por isso mesmo o terrorismo tem-lhes servido de pretexto muito útil para suscitarem o medo e assim mais rapidamente conseguirem os seus objetivos.  Eles sabem ser mais fácil controlar gente assustada do que as confiantes na capacidade de serem elas a definirem o seu próprio futuro. Por isso mesmo importa quebrar esse medo, levando a que pessoas vulgares possam concretizar coisas extraordinárias. Como  por exemplo inspirarem-se em propostas há demasiado tempo esquecidas, mas potencialmente vencedoras, feitas da criação de laços de solidariedade acima de quaisquer fronteiras e tendo âmbito bem mais lato e poderoso, que o de todos os governos do mundo, na exigência de uma sociedade mais humana.
É que todas as mudanças históricas aconteceram quando sistemas obsoletos foram derrubados por quem não os sentia capazes de corresponderem às aspirações. Ora quem sente otimismo perante um sistema capitalista a rebentar por todas as costuras, agravando desigualdades e reduzindo o número dos que nele encontram resposta para as suas intimas aspirações?
Snowden, Lessig e Jonsdottir sabem que os desafios são enormes mas tangíveis. Restaurar a Democracia é um imperativo, combatendo a manipulação das populações com fake news e outras mensagens, que pretendem prejudicar-lhes os interesses primordiais. Snowden até diz mais: ninguém pode esperar que venha alguém salvar o mundo para si. Cada um tem a responsabilidade de fazer o possível para derrubar o edifício corrupto em que se transformou a falsa ideia de Democracia, substituindo-o por outro, liberto dos seus vícios.