segunda-feira, 12 de junho de 2017

A esquerda, a direita e os mercados

David Spector é o autor de um ensaio agora publicado pelas Edições Odile Jacob («La Gauche, la Droite et le Marché) em que procura enaltecer as virtudes de um liberalismo de esquerda, que contrarie a receita neoliberal instituída desde os tempos de Reagan e de Thatcher. Para estes importava, sobretudo, fazer a guerra aos mais pobres, enfraquecendo-lhes os sindicatos, desmantelando o Estado-Providência e reduzindo os impostos para os ricos. Quatro décadas passadas a herança não podia ser mais pesada ao sopesarem-se as desigualdades de rendimentos nas populações afetadas pela austeridade e pelas privatizações.
Spector propõe o regresso a Stuart Mill, cujas ideias incluíam a sensibilidade a essas diferenças obscenas de rendimentos, sem porém por em causa a livre concorrência dos mercados, admitindo duas exceções: a saúde e a educação, que destinava quase exclusivamente ao setor público.
O filósofo era um entusiasta da abolição das fronteiras, porque conseguir-se-iam assim preços mais baratos. A abolição das taxas alfandegárias em 1846 foi vista como uma vitória do povo sobre os latifundiários, porque a importação do trigo permitiu embaratecer o preço do pão.
Mill defendeu igualmente a taxação dos rendimentos dos donos das terras e dos direitos sucessórios como forma de financiamento dos serviços públicos.
No século seguinte Keynes seguiu a mesma lógica de não por em causa os mercados, embora, a seu ver, os excessivos índices de desemprego justificavam os investimentos públicos destinados a ocupá-los enquanto os investidores  privados não se chegassem à frente.
Spector aponta Paul Krugman como continuador desta corrente de esquerda ao propor uma fiscalidade mais progressiva, o reforço dos sindicatos e do Estado-Providência.
Seria esta corrente de pensamento económico a necessária para dar resposta aos atuais impasses do sistema capitalista? Não compro esta ideia, porque Spector coloca-se numa perspetiva comum aos que insistem na ressurreição do modelo social-democrata, o que, nas circunstâncias atuais, constitui falácia só credível para quantos esquecem a inexistência das condições, que o tornaram possível durante décadas na Escandinávia e fundamentaram a existência de um falso modelo nórdico.
Baseando-se numa identificação confusa das contradições existentes nas sociedades dos nossos dias, Spector não consegue ser convincente nas propostas de que se quer fazer propagandista. No fundo falta-lhe a estruturação das ideias só possível se nos ativermos ao ideário marxista...

1 comentário:

  1. Obrigado pela sugestão, a ver o que Spector tem a dizer. O Liberalismo comporta uma vantagem soberana em relação às correntes marxistas, a saber, coloca o indivíduo e a defesa dos seus direitos no centro da sua ação política enquanto o Marxismo os sacrifica, a um e aos outros, em nome da suposta emancipação coletiva (que redunda em autoritarismo, sempre). Acho piada à sua insistência no carácter supostamente obsoleto da Social-Democracia, quando todos os Socialismos não são mais do que espetros esquálidos, como a História mostrou vezes sem conta, a precisarem urgentemente de serem exterminados de uma vez por todas... Enfim, as pessoas acreditam sempre no que querem, mesmo que toda a evidência empírica aponte em sentido contrário...

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