sexta-feira, 9 de junho de 2017

Corbyn, o vencedor da noite mesmo que derrotado nos números finais

Vinte e quatro horas depois da grande notícia do ano - já abordada em post anterior! - é altura de começar a olhar com objetividade para os acontecimentos de menor importância, que diariamente se vão sucedendo, e deles retirar as mais evidentes conclusões.
Foquemo-nos, pois, nas eleições  britânicas numa altura em que só estão definidos 230 dos 650 lugares no Parlamento e em que é já evidente o excelente resultado obtido pelo Partido Trabalhista e pelo seu líder Jeremy Corbyn.
Não terá sido nada fácil a este último arcar com a colossal campanha, que o intentou denegrir, quer nos jornais, televisões e redes sociais, quer no próprio interior do seu próprio partido, onde sobram infelizmente muitos órfãos da Terceira Via de Blair.
Acusaram-no de fraco e de radical, considerando as suas propostas políticas como próprias de há meio século e, por isso mesmo desajustadas desta época em que se considera imprescindível defender a liberalização dos mercados, a redução dos direitos e remunerações de quem trabalha e a condenação dos pensionistas à caridadezinha da fileira social.
Afinal a possibilidade de se renacionalizarem empresas, que nunca deveriam ter saído da esfera pública (águas, ferrovias, correios), e politicas ativas de maior acesso à Educação e à Saúde mereceram grande acolhimento do eleitorado, sobretudo dos mais jovens. A exemplo do que se verificara com Bernie Sanders confirma-se que a esquerda só é bem sucedida, quando perde a vergonha de o ser e não hesita em apresentar um programa assente nos valores socialistas.
Os conservadores tendem a ser penalizados pelo oportunismo e falta de estratégia da primeira-ministra, a quem quase de nada serve a recuperação de muitos dos votos anteriormente entregues à extrema-direita de Nigel Farage.
No caso desta direita xenófoba a quebra é avassaladora, tornando-se irrelevante. O que confirma a previsão aqui feita do iminente apagamento desse tipo de organizações por toda a Europa. Interiorizada a inevitabilidade de atentados quase artesanais e reduzidos os fluxos de emigrantes, que inflamavam os discursos dos que proclamavam os perigos de ver a civilização «cristã» ocupada pelas hordas «infiéis», o UKIP, a Frente Nacional, a Alternativa Alemã e outros grupúsculos similares estão condenados a desaparecerem do espaço mediático. Dando espaço para a afirmação dos ideais de que Corbyn é apenas  um dos promotores.
Por cá as esquerdas vão fazendo os possíveis para se integrarem nessa dinâmica, que pode voltar a ser imparável e empurrar as direitas para o lugar que merecem: o de ficarem a monologarem numa qualquer Travessa do Fala Só.

1 comentário:

  1. Corbyn perdeu as eleições, cabe notá-lo, já que May não só teve mais votos, como vai formar Governo (com a ajuda de um Partido ainda mais à direita que os Tories). Ainda bem, digo eu, e ainda bem, deve pensar ele, porque se as tivesse ganho, teria que ir arranjar dinheiro para pagar tudo o que prometeu. Demagogia, meu caro, ainda é demagogia, mesmo quando vem da boca dos nossos. E é isso que distingue Costa e Centeno de Corbyn e McDonnell. O problema não é a defesa de nacionalizações per si, ou do aumento da despesa, mas sim onde vamos buscar recursos para isso. E essa resposta, enquanto a Esquerda não a der, vai continuar a dar com os burros na água...

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