terça-feira, 20 de junho de 2017

Exigir o impossível ou conformarmo-nos com os maus hábitos?

A propósito do texto «Um Outro Mundo é Possível», o nosso leitor Jaime Santos fez um comentário de discordância, que me leva a reiterar o que então escrevi.
Ao contrário do que ele defende, aposto na necessidade de exigirmos dos políticos que nos governam uma probidade, que sei difícil de encontrar, mas comprovada em exemplos históricos indubitáveis. Não me conformo de modo algum com posições conformistas sobre a impossibilidade de controlar o lado sombrio da natureza humana, por muito que a História também esteja recheada de crueldades insuportáveis. Como se tem constatado no nosso irresoluto debate sobre as virtudes e limitações do Socialismo na sua versão marxista, sou o último a aceitar que sucessivos fracassos demonstrem a inexequibilidade da matriz em causa, apostando pelo contrário na capacidade de rastrear os erros e corrigi-los para, seguindo a lógica proposta por Samuel Beckett se falhe sempre, se falhe melhor em cada sucessiva tentativa.
Não enjeito a necessidade de controle, que o nosso interlocutor atribui quase em exclusividade aos defensores da Democracia Liberal. Por isso apoio a Regulamentação de todos os atos governativos e quantos a eles se associam. O escrutínio rigoroso constitui a melhor defesa contra as tentações corrompidas. Mas sou um defensor da governação norteada no respeito pelas Leis. E são estas, que devem ser melhoradas, blindadas quanto à sua utilização de forma oportunista ou venal.
Aqui fica a opinião crítica de Jaime Santos para um debate, que se alarga a quem nele se sentir estimulado:
A sua visão da História, meu caro, denota uma fé demasiado grande na competência dos políticos e dos Homens em geral, mesmo quando atuam com más intenções. Todos sabemos que eles são igualmente pressionados pelos seus eleitores e por forças populistas para lhes concederem segurança, a troco de liberdades, tipicamente apenas as dos outros, dos imigrantes, dos marginais. A Democracia Liberal, pelo contrário, assume que os homens precisam de controle não por serem monstros, mas sobretudo por serem venais e incompetentes. Os Socialistas irão falhar porque são eternamente incapazes de compreender isso. O Governo das Leis não nos protege apenas dos tiranos, mas igualmente da tirania das boas intenções (e se me chamar Conservador por lhe dizer isto, tomo-o como um elogio). Isto não quer dizer que eu discorde de Snowden, é precisamente o falhanço do modelo de governação das Leis que nos leva ao estado securitário presente, mas desagrada-me essa ideia de destruir o que existe, sabendo eu que a rutura (que é diferente da mudança pela reforma) é sempre para pior…

1 comentário:

  1. Ora aí está, na resposta à pergunta retórica que coloca, precisamente a minha posição. Eu acho que existe uma alternativa a esses dois extremos. Não devemos nem exigir o impossível, já que ao fazê-lo estaremos a autorizar todos os desvarios em nome dele, nem nos devemos conformar com a mediocridade daquilo que existe. Mas devemos sempre, repito sempre, manter o pessimismo da razão de que falava Gramsci, e não sei se sequer acompanhado do otimismo da ação. A nossa primeira obrigação é evitar mundos piores, pelo que o nosso primeiro mandamento deve ser 'pelo menos, não faças mal'. E se, certamente, o falhanço é normalmente o resultado de toda a ação política, dada a complexidade do mundo (como a tragédia de Pedrógão infelizmente mostra, apesar das tentativas de políticos corajosos como Capoulas dos Santos), seguramente que falhar melhor implica não repetir nenhum dos erros do passado e por isso agir com toda a prudência e rejeitar de todo as tarefas impossíveis, que deixamos para os ingénuos de Maio de 68. O real já é complicado que chegue...

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