quinta-feira, 24 de maio de 2018

Mais um desmentido de formatações destinadas a serem urgentemente descontinuadas


Vão-se sucedendo as más notícias para os urubus que anunciaram terríveis apocalipses se prosseguíssemos a via aberta por esta maioria parlamentar de aumentar o salário mínimo, reverter os cortes nos salários e nas pensões, ou retomar os feriados perdidos durante o (des)governo anterior. Apesar de ter seguramente o governo mais à esquerda entre os países que integram a União Europeia - aquele que mais contraria as lógicas neoliberais! -, Portugal acaba de ser reconhecido pelo IMD World Competitiveness Ranking de 2018 como aquele que mais subiu no ranking da competitividade, com sucessos particularmente significativos no Desempenho Económico, na Eficiência Governamental e na dos Negócios.
Um mínimo de humildade dos zésgomesferreiras e nos joõesvieiraspereiras do nosso burgo obrigá-los-ia voltar aos bancos da escola (mas de uma boa, que não repetisse as formatações bafientas de professores do género Braga de Macedo ou César das Neves!) para rever as matérias, que terão estudado tão mal!

quarta-feira, 23 de maio de 2018

A diferença de ter um primeiro-ministro competente e confiante


Acompanhando o debate quinzenal desta tarde, mais uma vez convertido num passeio de António Costa perante a indigência das questões colocadas por Fernando Negrão e Assunção Cristas, é melhor não aprofundar o que foi um espetáculo, que chegou a ser constrangedor pela debilidade manifesta dos oponentes do primeiro-ministro. Basta referir que a Negrão, apostado em falar do Serviço Nacional de Saúde, António Costa limitou-se e lembrar-lhe a pertença a uma bancada que, no momento decisivo, votou contra essa conquista de Abril e a Cristas voltou a lembrar-lhe que estava ali como primeiro-ministro e não como secretário-geral do Partido Socialista, algo que ela como catedrática de Direito, deveria estar mais do que ciente. Também Catarina Martins e Heloísa Apolónia, subitamente tomadas de um discurso particularmente agreste, tiveram de ser remetidas para a incongruência dos respetivos argumentos, que pretendiam ver o governo quebrar contratos ou revogar pareceres técnicos, independentemente dos custos previsíveis em ulteriores querelas judiciais ou mesmo negociais com quem tem de manter a fiabilidade institucional.
Ao  corroborar a confiança e a consistência com que António Costa respondia a sucessivos ataques da oposição e aos remoques das ambíguas apoiantes, lembrei-me de uma fotografia inserida na mais recente edição semanal do «Expresso» e que, substituía por si mesma as proverbiais mil palavras: tirada na última Cimeira Europeia em Sófia, víamo-lo a pôr as mãos nos ombros do fascista húngaro, como que sugerindo a necessidade de o empurrar mais para baixo, e fazendo rir a primeira-ministra inglesa.
Ele tem-se sempre distinguido pela positiva relativamente ao que era o comportamento de Passos Coelho nessas mesmas ocasiões, mas esta fotografia explicita-o melhor do que outra prova. Enquanto o entroikado ex-primeiro-ministro entrava ali a medo e quase parecia pedir para que nem sequer dessem por ele, António Costa vai confiante para as reuniões com os parceiros europeus, faz sentir a sua presença e anima as hostes, mesmo quando elas têm todos os motivos para estarem deprimidas. Confirmava a legenda: “Dizem que Costa passa bem na Europa: se querem descontração e um sorriso, chamem o António!”
Se a atitude de Passos Coelho nos dava vergonha, a convicção de António Costa só nos pode galvanizar. E é muito diferente ter um primeiro-ministro, que sabe o que quer, como quer e como planeia continuar a fazer, de outro manifestamente incompetente, ansioso pelas diretivas dos schäubles para dar a aparência de ter alguma ideia concreta de como «bem governar»...

terça-feira, 22 de maio de 2018

A verdadeira homenagem que António Arnaut merece


Há cerca de um ano mudei de médico de família a quem estabeleci exigente desafio: o de nos manter vivos e saudáveis o bastante para assistirmos à cerimónia de formatura da nossa neta mais nova, agora com onze meses. Compreende-se por aqui que conto socorrer-me de frequentes atos médicos durante duas dúzias de anos apesar dos condicionalismos de ser obeso e ter hipertensão. Felizmente que o interlocutor não se intimidou com a exigência e descansou-me com a perspetiva de só não alcançar esse objetivo se não investir algum esforço em obtê-lo. E, eu que guloso me confessei, não me confrontei com a conversa parva de me privar dos prazeres de mesa ou outros, que um dia me haviam levado a reagir a uma colega sua, instando-a a mostrar a mesma eficiência sem pôr em causa o meu assumido hedonismo de não me predispor a sacrifícios atentatórios da permanente reivindicação a ser feliz sem grandes incómodos.
Em suma: tendo em conta a ambição exposta, não me dá jeito nenhum manter o dispendioso seguro, a que me vi obrigado a recorrer quando, mudando de casa, fiquei sem médico de família no Serviço Nacional de Saúde. Não aprecio, igualmente, as condições terceiro-mundistas daquele que me cabe, sempre caótico, barulhento, desorganizado nas ocasiões em que a ele recorri.
Não tenho, igualmente, ilusões quanto aos méritos do Seguro de Saúde, que me tenho visto obrigado a pagar. No ano transato, depois de esgotado o pecúlio atribuído pela seguradora para os meus gastos nesses atos médicos, vi-me coagido a pagá-los bem mais caros no último trimestre do ano. E sei que, acaso tenha a desdita de uma doença grave, por exemplo do foro oncológico, serei empurrado para as clínicas e hospitais do setor público, porque os senhores da medicina privada não andam nisto para sequer ganharem pouco dinheiro, quanto mais o perderem com doentes exageradamente consumistas.
Tenho, pois, fundamentadas razões para defender o Serviço Nacional de Saúde, que António Arnaut, criou com outros parceiros injustamente esquecidos, quando se fala da paternidade dessa conquista de Abril, imposta pela Lei 56/79, de 15 de setembro, então aprovada num governo comandado por Mário Soares. Lei só possível após árduo esforço e que contou com a oposição tenaz - é bom não o esquecer! - do CDS e do PSD, incluindo Marcelo Rebelo de Sousa.
Apesar de se lançar por diante um SNS, que chegou a ter um desempenho de qualidade bastante superior ao que, então, se praticava em muitos países europeus, as direitas foram bem sucedidas na estratégia de o sabotarem o bastante para que proliferasse o princípio de «quem quiser saúde que a pague» como então um deputado do PSD não teve pejo em defender num memorável debate em que as suas palavras causaram escândalo.  A consequente indignação não bastou para que os interessados em fazerem negócio com a (falta de) saúde dos portugueses entrasse numa espiral ascendente, criando-se sempre novos hospitais e clínicas privadas para concorrerem em desigualdade de condições com um serviço público desorçamentado e intencionalmente condenado à degenerescência.
O governo de Passos Coelho parecia destinado a dar a machadada final em tal Serviço, possibilitando lucros ainda mais superlativos aos interesses, que representava. No limite replicar-se-ia algo parecido com o verificado nos EUA, e denunciado num célebre filme de Michael Moore em que os pacientes só são admitidos num hospital mediante um seguro de saúde e dele expulsos quando já nele não dispõem de verbas para prosseguirem os tratamentos.
O novo governo de coligação das esquerdas trouxe fundamentadas esperanças em como esse rumo destrutivo conheceria justificada inversão. E por em tal crerem, António Arnaut e João Semedo até se deram ao trabalho de aprofundarem as medidas a implementar para que tal se verificasse. Em vão, já se vê, já que esse trabalho valiosíssimo conheceu palavras encomiásticas do primeiro-ministro e do ministro da tutela sem que os elogios disso passassem. Pelo contrário os sinais dados por Adalberto Campos Fernandes foram esclarecedores, quando há seis meses nomeou Maria de Belém como responsável da Comissão incumbida de rever a Lei de Bases da Saúde. Ora, além de ter sido a candidata que facilitou o passeio do representante da direita (e recordemo-lo, histórico opositor ao Serviço Nacional de Saúde) para a Presidência da República, quem é verdadeiramente Maria de Belém senão uma das principais figuras do Partido Socialista ligada ao influente lobby da Saúde privada? Quem ignora o seu atual vínculo ao grupo Luz Saúde, depois de ter exercido funções de relevo noutros seus concorrentes? Alguém de bom senso acredita que a antiga ministra da tutela, que tem no curriculum essa degradação do SNS enquanto governou, irá agir a contrassenso do que sempre fez na vida?
Mas não esqueçamos que o envolvimento de gradas figuras do Partido Socialista - frise-se que é o meu partido, aquele para que pago quotas! - aos interesses privados da Saúde não se queda por aí: Óscar Gaspar, que foi secretário de Estado do governo de José Sócrates e depois um dos lugares-tenentes de António José Seguro, preside hoje à Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP), que concerta os interesses de todos os grupos empresariais do setor, e é vice-presidente da CIP.
Isto significa que António Arnaut faleceu numa altura em que o seu partido - o nosso partido! - age absolutamente à revelia do que sempre defendeu e por que foi sempre tão admirado.
Ontem não faltaram glorificações ao seu legado, mesmo por quem está disposto a completar-lhe a destruição. Ora homenageá-lo não passa por decretar dias de luto nacional ou exibir choros de hipócritas carpideiras. Ser consequente com tal herança passa por fazer cumprir o projeto de vida, que sempre o inspirou.  Daí que, voltando ao princípio deste texto, anseio pela possibilidade de regresso ao Serviço Nacional de Saúde enquanto utente e nele cumprir a ambição imposta ao meu atual médico de família. Vivenciando no entretanto um país em que a Saúde seja efetivamente um direito e não uma rentável fonte de negócio de quem dela pretende colher obscenas rendas.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Quem duvidava que o homem das selfies iria mesmo lá?


Há muito que deixei de ligar ao futebol de que, em tempos, fui entusiástico cultor. Ciente da sua utilização como forma de alienar gente de pouco tino - que bem melhor faria se dedicasse as exaltadas emoções a indignar-se com a sua condição de vítima de uma sociedade obscenamente desigual para cuja mudança deveria envidar os melhores esforços -, deixei de acompanhar o que nesse mundo se vai passando. Vou, porém, fazendo aqui e além algumas exceções e uma dessas vezes aconteceu esta tarde, quando liguei a televisão para espreitar os minutos finais da Taça de Portugal. Não tanto para aferir qual das duas equipas em campo ganharia, mas para confirmar o que já adivinhava: depois de alimentar o tabu sobre se estaria ou não presente, lá compareceu Marcelo para entregar o prémio aos vencedores. Ganhava assim a aposta íntima comigo mesmo em como ele nunca prescindiria de mais uma oportuna habilidade para concentrar em si as atenções e prosseguir na longa pré-campanha eleitoral para um segundo mandato, que iniciou logo no primeiro dia em que tomou posse do atual cargo.
E, porque era essa presença ou ausência o motivo da minha curiosidade? Simples! Apenas corroborar que, conhecendo a intenção de António Costa em ali comparecer, Marcelo tudo faria para não lhe dar a oportunidade de ficar com o palanque das personalidades vip só para si. Ele sabe que o seu protagonismo pode vir a ser suplantado pelo do primeiro-ministro conquanto os cidadãos se apercebam que um planeia, executa e consegue resultados, enquanto o outro apenas replica a função de corta-fitas, que já era a do distante antecessor de quem o pai foi obsequioso ministro.
A preocupação em estar sempre no centro do palco é tão notória, que a criação da dúvida sobre se iria ou não ao Jamor só serviria para potenciar as vantagens de ter em si concentrados os focos das objetivas dos fotógrafos ou dos operadores de câmara das várias televisões. Porque estas alimentariam até ao último momento a dúvida sobre a sua opção nunca deixando de o ter como prioridade no alinhamento das suas notícias.
Numa semana em que outro presidente, o do Sporting, deu sobejas provas do seu patético narcisismo, os ainda apreciadores do estilo marcelista andarão porventura distraídos do facto de, não atingindo os patamares agudos do delírio de Bruno de Carvalho, o seu ídolo também não desmerecer de um adequado tratamento psiquiátrico. É que esse afã em concentrar em si as atenções é despudorado o bastante para que não só se lhe vá acentuando a ridícula compostura, como também denunciando frustrações remotas, que um Sigmund Freud decerto não enjeitaria investigar.
A semana iniciar-se-á com a continuação da novela, que tem ocupado os tempos de antenas quase por inteiro. E, apesar do planeta continuar imparável na sua rotação e translação, os jornais e as televisões tudo farão para que cresçam as tiragens e as audiências à conta de um momento, que quererão congelar no seu estado presente enquanto for possível. Quanto mais não seja para manterem a poeira densa capaz de impedir os explorados de consciencializarem o esbulho das mais-valias criadas com o seu duro labor.

domingo, 20 de maio de 2018

O meu repúdio por oito figurões, que se julgam com direito a disporem da minha vontade!


Na semana transata os líderes das oito religiões mais representativas a nível nacional decidiram conjugar esforços para exigirem a Marcelo Rebelo de Sousa, que vete a lei sobre a eutanásia, possivelmente aprovada muito em breve na Assembleia da República.
A minha reação a essa iniciativa conjunta de quem anda a iludir os portugueses com esse verdadeiro ópio, que é a crença num qualquer deus, é de total indignação. Que têm esses oito tipos a ver com o meu direito a morrer quando e como quiser? Como é que gente que acredita em algo, que considero uma mera ilusão, senão mesmo uma mistificação para engano de papalvos, julga-se no direito de me impedir de dispor sobre o meu corpo? Não é difícil apodar de repugnantemente FASCISTA essa atitude, que só tem paralelo com aquele tipo de regimes islâmicos onde só se aceitam os preceitos supostamente ditados pelo Corão, cabendo a quem com eles não concordar o calar-se ou sujeitar-se ao martírio.
Já aqui o disse e repito-o: a lei em vias de ser apreciada no Parlamento ainda não é aquela que desejo ver instituída no meu país. A exemplo do cientista neozelandês, que foi notícia há algumas semanas por conseguir na Suíça o fim de vida, que o seu país lhe negara, eu quero ter o direito de, mesmo não estando em sofrimento físico causado por alguma doença terminal, socorrer-me do apoio competente de quem me possa proporcionar um fim sereno e sem dramatismo.
Não prevejo que almeje pôr fim á vida nos próximos dez ou vinte anos, mas tão só constate já esperar pouco do resto da existência, para quê prosseguir um rumo de tristeza, sem as compensações hedonistas a que deveríamos todos ter direito?
A atitude dos oito figurões merece-me repúdio por significar precisamente o pior do que têm representado as religiões ao longo da História humana. Lá porque há algum alucinado, que congemine a existência de uma qualquer divindade logo cuida de impor aos demais, que nela passem a acreditar. À conta disso as religiões são as responsáveis pelos massacres mais persistentes em todos esses milénios. Porque, se crimes como os cometidos pelos nazis ficaram cingidos a um período curto de doze anos, dificilmente se encontrará alguma acalmia no planeta caracterizada pela interrupção dessa permanente tentativa de subjugar, senão matar, quem pensa de forma diferente.
Mesmo ficando aquém do que gostaria que comtemplasse a lei sobre o direito a morrer com dignidade  constituirá um primeiro passo para que, quando chegar a altura de a ela recorrer, não me veja na contingência de imitar o cientista neozelandês, naquela que será uma decisão legítima e racional.
Quanto ás religiões, que replicam os piores tiques totalitários, importa que a laicidade do Estado lhes imponha travões eficazes, porque a carga de nocividade que comportam continua a pôr em causa o respeito pelos direitos dos que delas rejeitam servir de acólitos.

sábado, 19 de maio de 2018

Um novo museu em Lisboa dedicado aos Descobrimentos ou à Descoberta?


Apesar de ter começado por ser ideia de António Costa, depois retomada por Fernando Medina, não sou grande entusiasta da ideia de um Museu dedicado aos Descobrimentos, por muito que agora se tenha designado como da Descoberta. Um dos problemas muito sérios, que torna o imaginário português profundamente reacionário é o posicionamento de parte demasiado significativa dos cidadãos relativamente ao período colonial, que vai desde as viagens planeadas pelo Infante D. Henrique para estender o comércio (mais do que essa mistificação, que foi a da expansão da fé católica) às costas africanas até à descolonização pós-25 de abril. Quando esse mesmo comércio passou a ser o de escravos há sérios motivos para um distanciamento crítico relativamente ao comportamento ignóbil dos nossos antepassados. Não concordo com desculpas  a posteriori que nada alteram do cometido. Defendo sim uma divulgação séria dos atos perpetrados durante esse período da nossa Historia, que não teve ponta da grandeza difundida pelo ensino durante o salazarismo-marcelismo. A lógica deverá ser sempre a de aprender com os erros do passado para os não repetirmos no futuro!
Que esse trabalho está por fazer assim o dita a reação troglodita dos que, perante os excelentes programas de Fernando Rosas sobre a presença colonial portuguesa em África durante o século XX, disseram cobras e lagartos. Aos que reagiram destemperadamente aos elogios aqui dedicados a esse urgente trabalho de divulgação fiz o habitual: bloqueados no facebook e impedimento de acederem aos conteúdos aqui publicados. As pérolas, mesmo que de valor limitado, seriam desperdiçadas se endereçadas a outrem, que não os que as merecem.
Compreendo que haja interesse em entreter os turistas, que nos visitam com informações sobre a nossa História, que replique o modelo do que, sob as arcadas do Terreiro do Paço, conta o passado de Lisboa e faculta as emoções de quem aqui esteve no dia do Terramoto de 1755. Esse seria projeto que daria maior relevância aos aspetos positivos dessas viagens marítimas do que ao seu lado sombrio e teria pleno cabimento nas instalações do antigo Museu de Arte Popular. Mas os estudantes de hoje, seja no ensino primário, no secundário, ou nas universidades, devem ser corretamente informados dos crimes cometidos à boleia da «epopeia dos Descobrimentos» ou da exploração colonial do «Império», quando Salazar julgava possível contrariar a dinâmica da História e enganar meio mundo com a mistificação do luso-tropicalismo.
Embora o atual diretor do Museu Nacional de Arte Antiga me mereça reservas - não pela competência, mas pelo posicionamento ideológico, que o levou a «abrilhantar» há alguns meses uma iniciativa do CDS (que com o PSD alberga os ideólogos do «Portugal heroico», mais do que desmentido em estudos sérios, quer nacionais, quer internacionais) - ele tem razão quando sugere maior investimento nos museus existentes, capazes por si mesmos de cumprirem o desígnio inicialmente formulado por quem teve a ideia de um novo Museu, que sinceramente julgo sem sentido...


Os milhões que nos vão saindo do bolso


Para quem com ele ganhou, que radioso terá sido aquele dia - captado pelas câmaras dos fotógrafos para ficarem registados enquanto documento para memória futura! - em que Carlos Costa apertou a mão a Donald Quintin selando o acordo pelo qual a Lone Star ficou dona dos despojos do BES. A imagem ainda captou o sorridente Sérgio Monteiro que, no governo de Passos Coelho, foi o protagonista-mor da venda dos restos do setor público a interesses estrangeiros a preço de pataco.
Agora, e para dar cumprimento a esses compromissos de que não foi responsável, o atual governo  avançou com avultada transferência de dinheiros dos contribuintes para reequilibrar o Novo Banco e garantir aos seus gananciosos acionistas os lucros prometidos pelo governador do Banco de Portugal e pelo secretário de estado do governo da troika. E não há um sobressalto público, uma vaga de fundo indignada com a forma como se esbanjam os impostos pagos por quem trabalha e os pretenderiam melhor aplicados na Saúde, na Educação, na Cultura, na Investigação Científica ou, melhor ainda, na reconstrução de um setor público dinâmico e lucrativo, que aliviasse o peso fiscal dos rendimentos das famílias.
Mas como espicaçar a apatia dos eternos pagadores dos desvarios governativos se ainda há poucos dias a tão apoiada Banca decidiu perdoar avultada dívida ao Sporting?  Ora, numa altura em que o clube de Alvalade é notícia pelos piores motivos com energúmenos a demonstrarem os efeitos da infiltração da extrema-direita nas claques, o presidente e  sua exígua corte de indefetíveis a quererem conservar os bem remunerados cargos, o treinador a lamber os beiços com a antecipada expetativa de se ver principescamente indemnizado e os jogadores atraídos pelas transferências passíveis de mais os enriquecerem, é singular que os portugueses se deixem embalar pela telenovela profusamente emitida pelas diversas televisões e não pensem, sobretudo, no quanto estes sobressaltos lhe irão pesar na carteira.
Quem por estes dias andará particularmente satisfeito será Miguel Relvas por ter sido convidado a bem remunerado emprego por uma empresa norte-americana disposta a estender os seus negócios a Marrocos e à restante África. Ora alguém terá soprado aos seus responsáveis que, aqui neste canto ocidental da Europa, existia alguém na posse de agenda telefónica com os números de quem lhes pudesse servir de veículo de penetração em tais geografias. Da informação à contratação do «facilitador de negócios» terá decorrido breve instante... e melhor se confirmou o porquê de certos arrivistas  militarem na política para melhor servirem as suas interesseiras ambições!

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Alguém no seu juízo acredita que as coisas irão continuar como são?


Um amigo meu insurge-se com o facto de vivermos numa época marcada pelo individualismo das gerações mais novas, apostadas em seguirem a máxima: «cada um por si e todos contra todos».
Será assim? Será que essa idiossincrasia tão ligada ao neoliberalismo, que manda a concorrência prevalecer nos mercados alienando quaisquer outras razões económicas para a desvalorizar, não estará em vias de ser posta em causa pelos limites dessa orientação ideológica, que só tem agudizado as injustiças e as desigualdades? O meu otimismo, fundamentado no materialismo histórico, dita-me a iminência de uma progressiva relevância da solidariedade, da consciência de partilha, da intenção transformadora de uma realidade ameaçada por tantos constrangimentos distópicos. É a velha lei de nada continuar a ser como foi, justificando o realismo de exigir o impossível.
Uma das grandes vozes reacionárias da nossa cultura é Clara Ferreira Alves, que recentemente se insurgia contra a feira de vaidades em que se convertera uma gala no Metropolitan de Nova Iorque a pretexto da inauguração de uma retrospetiva sobre objetos de culto religioso facultados pelo Vaticano. E lembrava como tem sido tendência dos últimos anos a avaliação meritória de certas obras literárias não tanto pelos seus conteúdos, porque sobretudo valorizadas pelo excelente aspeto dos seus autores. Por isso Bruce Chatwin era recentemente abordado pelo «New York Times» não tanto pelo que escrevera ou por quanto conseguira manter secreta a sida de que viria a morrer, mas através das fotografias que adornavam o texto. Ou o nórdico Karl Ove Knausgard com presença garantida na lista dos best sellers, porque as capas com ele a posar na capa leva muita gente a comprar-lhe os romances, independentemente do que neles constam.
Podemos reconhecer que o culto da imagem tem tido uma grande importância nas últimas décadas por influência da publicidade, que vem moldando os gostos à medida das modas que patrocina. Nesse sentido podemos lamentar que, decerto, as formas têm-se sobreposto aos conteúdos.
Perderam importância os grandes pensadores que, ao longo dos três primeiros quartos do século XX, tanto influenciaram gerações sucessivas de jovens, inquietados pelas suas propostas e, sobretudo, pelas suas questões. Hoje é impensável encontrar quem se iguale à importância conhecida nas suas épocas por Bertrand Russell, Jean Paul Sartre ou Herbert Marcuse. Alguém tão brilhante como o aqui ilustrado Noam Chomski quase se cinge injustificadamente a uma exígua plêiade de admiradores. Mas será assim por muito tempo? É que o conceito de «mestres pensadores» sempre norteou a história da Humanidade com Sócrates, na Antiga Grécia a ensinar a de tudo duvidar, a tudo questionar. E a comunidade humana anda carecida desse espírito crítico, dessa necessidade de pôr em causa o pensamento dominante - aquele que nos incita a aceitar o nosso viver como o único possível, sem lhe procurar alternativa mais consentânea com as aspirações a sermos mais felizes. Ora esse culto da imagem pueril é um dos que tem de ser contestado e assim o será tão só seja ultrapassada esta fase em que, dos EUA a Itália, das Filipinas à Argentina, o mundo político tem sido dominado por serôdios populismos. Se com passos atrás para que se possam dar outros bem mais afirmativos para diante, a Humanidade sempre avançou para formas mais avançadas de civilização. Porque deixaria de assim prosseguir a sua evolução?

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Amigos da onça, sabotadores e outros que tais


1. Há coisa de trinta anos, quando ainda era recente a minha militância no Partido Socialista, costumava frequentar a sede do Rato a pretexto das excelentes conferências aí propiciadas no âmbito do Gabinete de Estudos. Numa delas deliciei-me com a aula aprofundada, que João Cravinho ministrou evidenciando notável clareza no que estava a acontecer numa altura em que emergia um novo mais que tudo das direitas, vindo de Boliqueime para, durante duas dúzias de anos (com um breve intervalo de permeio) dar cabo da vida de muitos portugueses das classes mais desfavorecidas.
Na altura ganhei tal admiração por quem fora Ministro da Indústria e Tecnologia num dos governos de Vasco Gonçalves, que o acreditei capaz de grandes feitos pelo país e pelos seus cidadãos. Infelizmente, quando voltou a ocupar cargo ministerial durante o governo de António Guterres não lhe vislumbrei o tal grão-de-asa para que o julgara talhado.
De aí por diante fui-lhe acompanhando os passos sem voltar a encontrar-lhe esses méritos. Mas as suas posições mais recentes, não só dizendo pior de Sócrates, que Maomé do toucinho, e logo pondo em causa os que com ele tinham sido ministros, demonstra o quanto a idade teve nele três efeitos coincidentes: por um lado a falta de gratidão por quem o nomeou para cargo muitíssimo prestigiado, e ainda melhor remunerado no BERD (Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento  ); por outro a manifesta a falta de discernimento de quem deixou de compreender a diferença entre o essencial e o acessório; e, finalmente, o despeito por ninguém mais dele se ter lembrado no Partido onde julgou trilhar carreira, que ambicionaria recompensada com outro tipo de consideração.
A exemplo de outras personalidades políticas, que me chegaram a suscitar justificada admiração numa determinada altura e depois se transformaram em caricaturas ao estilo de Mr. Hyde, João Cravinho faz jus à mesma fórmula com que Donald Tusk mimou o seu homónimo na Casa Branca: com um «amigo» assim o PS dispensa quaisquer outros inimigos...
2. Parece que as direitas não ficaram nada satisfeitas com a nomeação do novo diretor da Polícia Judiciária., oriundo da Unidade Nacional Contra o Terrorismo. Esperemos que ele traga consigo saber e competência bastante para desarmadilhar muitas das minas por elas lançadas quotidianamente através dos pasquins do costume e que visam pôr em causa a honorabilidade dos membros do Governo.
A substituição dos detentores de altos cargos da Administração Pública, que terão sido nomeados ou passado incólumes durante o período do governo de Passos Coelho, poderá facilitar o sucesso de quem, em cada ministério, tem de olhar à volta para adotar as melhores estratégias sem se esquecer das  possíveis sabotagens praticadas na retaguarda.
3. Os acontecimentos criminosos relacionados com o Sporting estão a ocupar tempo demais nas televisões, mas têm sido elas as maiores fomentadoras da ambiência pútrida em que anda mergulhado o mundo do futebol nacional. Se o Fado se reciclou com a inteligência e o talento de muitos dos seus novos intérpretes e se Fátima tende a perder influência à medida, que a razão ditar as cabeças de quem ali busca inexistentes transcendências, o Futebol tornou-se no super F alienador, eficaz na capacidade em estupidificar quem nele investe as emoções, que melhor seriam aplicadas em lutar pela alteração das causas propiciadoras das suas frustrações. O país muito ganharia se as catarses dos seus explorados se virassem contra os que os exploram de forma obscena (vide a comparação das remunerações dos administradores das empresas cotadas com os dos trabalhadores nelas empregados!)
4. As cotações na Bolsa de Xangai estão em alta e prometem assim continuar. Inteligentemente o regime de Pequim vai sorrateiramente ocupando os espaços vazios abandonados por Trump, que prometendo tornar a América grande, lhe vai diminuindo rapidamente a influência. Se a China estava fadada para se tornar na maior das superpotências do século XXI, o pato-bravo da Casa Branca abre-lhe autoestradas para que o acesso a essa liderança mundial se torne mais fácil...
5. Ainda ontem dizia a uns amigos que quem compra artigos no IKEA deveria levar um tiro por ser marca criada por um nunca arrependido nazi. Daí que ninguém me venha alguma vez a encontrar nos seus corredores. E, do mesmo modo, também a Amazon ou a Starbucks podem esperar sentadas se têm alguma expetativa de me fazerem seu cliente. Razão para isso: a odiosa conduta perante a Câmara de Seattle que quis criar uma taxa municipal às empresas mais lucrativas da cidade a fim de coletar verbas para socorrer aos sem-abrigo da cidade. Resultado: comprou uma guerra, que a obrigou a recuar, baixando a taxa de 500 dólares anuais por empregado para uns mais exíguos 275. E, no entanto, quaisquer das empresas abrangidas pela nova legislação apresentou lucros de muitos milhões no ano transato. Boicote ativo contra o seu crapuloso comportamento é o mínimo que elas merecem...

quarta-feira, 16 de maio de 2018

Andará Marcelo a treinar a canção dos borzeguis pretos?


Tenho-o dito e redito: uma das maiores assombrações, que paira sobre o meu dia-a-dia é a possibilidade de me cruzar com Marcelo Rebelo de Sousa e ele se me dirija com a habitual loquacidade dizendo:
- Oh amigo, você está-me a faltar na minha coleção de selfies! Deixe cá corrigir a falha!
E pronto, lá estarei de trombas, mas com um sorridente Marcelo a conseguir o seu objetivo!
Temeroso de tal ameaça já começo a ter apreensões, quando me tocam à campainha da porta. Será que é ele? Será que, perante o meu contínuo esforço em me desviar das suas rotas de propaganda quotidiana, ele me virá no encalço e não lhe escapo à intenção?
Esta manhã ganhei ainda mais fundamentada apreensão, quando aqui no canto do ecrã do computador me apareceu um alerta do «Diário de Notícias» a dar conta que ele se dissera vexado com o sucedido lá para as bandas de Alcochete.
Vexado? Palavra já algo caída em desuso e subitamente resgatada pela tagarelice do inquilino de Belém? Ora é termo, igualmente, de uma das principais obras do reportório do coro que integramos, peça medieval, em que a corte proíbe a quem dela não pertence o uso de borzeguis (sapatos) pretos, arriscando-se quem desrespeitar a lei a ser  «vexado e preso»!
Senti um frémito, que me acelerou a batida cardíaca: será que, nas horas mortas passadas no palácio, o presidente anda a treinar esse tema para que uma noite destas apareça ao ensaio do coro e logo exija a obrigatória selfie com quem o integra?
Começo a ter razões para ficar preocupado!