quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Gente desesperadamente só

A morte terá sido tão lenta a chegar quanto silenciosa: quando a polícia japonesa entrou num apartamento ocupada pelos três elementos já idosos de uma família, já os corpos estavam em processo de lenta mumificação depois de exalarem o derradeiro suspiro.
A causa? A FOME! Abandonados pelo exíguo sistema de Segurança Social, que os ignorava, esses velhos esgotaram os últimos alimentos e aguardaram  a acção da natureza. Sem se revoltaram para o exterior donde não esperavam qualquer tipo de apoio.
Anda-se a morrer muito e de forma muito solitária por esse mundo fora.
Há dias fora o emigrante luso abandonado numa valeta belga. Mas nem sequer nos chegam notícias de tantos sem abrigo a quem o frio e a fome vai adiantando o inexorável fim.
O que diz muito da falta de humanismo nesta sociedade virada para a exploração da miséria alheia como forma de um número ínfimo de privilegiados usufruírem obscenas mordomias cuja legitimidade nem sequer questionam nas suas consciências.
Dias atrás havia quem se surpreendesse com o número invulgarmente elevado de óbitos de idosos em comparação com estatísticas anteriores. E um “especialista” inglês veio a uma universidade portuguesa anunciar uma evidente lapalissada: que a crise actual  está a reduzir a esperança de vida a quem a poderia ter bem mais dilatada. Mas, se os mesmos jornais anunciam que já há imensos doentes crónicos a, por falta de recursos, prescindirem dos seus medicamentos e tratamentos para a diabetes, a hipertensão ou a depressão, é claro que tais dados estatísticos passam a fazer tanto sentido quanto o de existir gente desesperada, terrivelmente só, a desistir de tudo com o alívio de um sofrimento enfim terminado.

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