sexta-feira, 1 de junho de 2012

Cosmópolis e os impasses do sistema




Dos filmes estreados no festival de Cannes, «Cosmopolis» será dos que mais elucidativos se revelam em relação aos dias de hoje, por representar o ponto de não retorno deste capitalismo em crise: quem hoje comanda todos os fluxos financeiros, condicionadores da economia real, está tão desfasado da vida concreta dos milhões de pessoas afetadas pelas suas decisões, que nem estará habilitado a compreender a essência dos tumultos depressa despoletados à sua volta.
A ideia contida no romance de Don DeLillo e traduzida em filme por David Cronenberg constitui uma metáfora eloquente sobre este presente marcado pelos movimentos especulativos dos grandes bancos de investimento empenhados em sobreporem-se a qualquer tentativa de controle pelo poder político. O garboso corretor, que vê o mundo a partir do espaço insonorizado da sua limusina nem sequer consegue aperceber-se do facto de prenunciar-se nos engarrafamentos e nas manifestações de rua o seu iminente fim.  E esse será o eventual drama deste momento histórico: porque sem a linha de orientação de uma ideologia pela qual se possa substituir uma estrutura social e política em cacos por outra, emergente e consistente, o resultado poderá ser avassalador. Depois da tomada da Bastilha, poderá vigorar um breve, mas terrível período de Terror, antes da emergência de um qualquer napoleão.
O filme de Cronenberg parece constituir um belíssimo retrato sobre os impasses em que caiu o capitalismo enquanto sistema incapaz de se voltar a reformar e de assegurar o bem estar dos gloriosos trinta anos de crescimento económico vividos depois da II Guerra. Mas nada prefigura de alternativa viável, e esse é o drama vivido atualmente pelas esquerdas ocidentais...

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